{"id":127,"date":"2024-02-10T11:58:05","date_gmt":"2024-02-10T14:58:05","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=127"},"modified":"2024-03-29T10:37:34","modified_gmt":"2024-03-29T13:37:34","slug":"alma-do-outro-mundo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/alma-do-outro-mundo\/","title":{"rendered":"ALMA DO OUTRO MUNDO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>ALMA DO OUTRO MUNDO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conto Francisco Piccirilo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma pequena localidade do interior paulista, ai pelo ano de 1924, existia um casal, que desde as bodas nupcial, nunca viveu bem.<\/p>\n\n\n\n<p>D. Filomena, de cor branca, aparentando uns 18 anos, era muito boa, por\u00e9m, Jo\u00e3o, marido dela, de cor quase escura, aparentando uns 30 anos, n\u00e3o gozava de boa reputa\u00e7\u00e3o. Embora fosse homem trabalhador, devia sofrer de neurastenia, pois qualquer coisa de anormal, era motivo para faz\u00ea-lo entrar em briga com a companheira.<\/p>\n\n\n\n<p>Suas brigas n\u00e3o eram somente f\u00edsicas; pratos, xicaras e outros utens\u00edlios, acabavam sendo danificados em benef\u00edcio dos fabricantes. Entretanto, o casal estava ficando cada vez mais pobre visto que, o marido n\u00e3o ganhava suficiente para cobrir seus pr\u00f3prios preju\u00edzos. Os vizinhos tinham pena de D. Filomena, mas nada podiam fazer, pois qualquer interven\u00e7\u00e3o ser-lhe-ia prejudicial.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco tempo viveram na casa ap\u00f3s o casamento. N\u00e3o tendo mais nada e n\u00e3o podendo comprar, mudaram para outro pr\u00e9dio mais pobre ainda. A nova morada era uma casinha feita de madeiras, coberta de sap\u00e9 com piso de ch\u00e3o batido. Triste situa\u00e7\u00e3o de um casal ainda novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Descombinados na cor, na idade, no g\u00eanio, afastados dos vizinhos e amigos que infelizmente n\u00e3o tinham, aquele casal, estava condenado a viver isolado da sociedade. Maldi\u00e7oado pelo povo, o homem j\u00e1 estava no inferno mesmo em vida. Os moradores do pequeno lugar costumavam comentar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Esse homem, nem no inferno os dem\u00f4nios querer\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente para a mulher, o marido viveu poucos anos depois do enlace matrimonial. E, embora n\u00e3o fosse estimado pelo pessoal, houve muitas pessoas no enterro. Quem sabe se aquilo era alegria de se livrarem de t\u00e3o funesto homem. A mulher, que nunca sa\u00eda, aquele dia acompanhou os restos mortais de seu algoz marido. S\u00f3 assim pode ser vista pelas fam\u00edlias da cidadezinha. Segundo o retrato de noivos, D. Filomena n\u00e3o mais era uma mulher; era um farrapo humano, que coberta com um pano preto e de cabe\u00e7a baixa, acompanhou o cortejo f\u00fanebre at\u00e9&nbsp;a&nbsp;Cidade&nbsp;Santa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tendo marido, filhos, parentes, propriedade, nada que a prendesse, D. Filomena arrumou seus trapos num pequeno embrulho, tomou no mesmo dia o trem e partiu para a cidade de seus pais. O lugarejo voltou a ter a tranquilidade de outrora. A casinha, isto \u00e9, o casebre ficou abandonado. Ningu\u00e9m quis alug\u00e1-lo. O mato cresceu na frente, inclusive no quintal onde havia diversas arvores frut\u00edferas; (laranja, lima, manga, goiaba, etc). O lugar ficou conhecido por &#8220;casa mal-assombrada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s algum tempo, a maldi\u00e7\u00e3o fora esquecida e as possibilidades de se colher as frutas agu\u00e7ou o apetite dos meninos que sem ligar ao complexo do medo, trataram de apanh\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Meus pais, por tradi\u00e7\u00e3o, sempre possu\u00edram uma cabra que, ali\u00e1s, gra\u00e7as a ela, nunca faltou leite em casa, por\u00e9m, a bicha de vez em quando costumava fugir e invadir os quintais alheios. Em uma dessas ocasi\u00f5es, eu e meu irm\u00e3o mais velho fomos procur\u00e1-la e quando demos com o animal, ela estava pastoreando folgadamente no terreno da casa abandonada.<\/p>\n\n\n\n<p>Aproveitando sua calma, subimos a uma limeira quase pr\u00f3ximo da cozinha. Dali alguns momentos, come\u00e7ou a chover cacos de pedras e meio tijolos e acabamos descendo&nbsp;da&nbsp;\u00e1rvore&nbsp;nem sabemos de que maneira e nos enfiamos com cabra e tudo pelas cercas do vizinho, indo aos trancos e barrancos, caindo e se levantando sem saber de que modo, parar em casa quase sem f\u00f4lego. Era mais ou menos meio-dia numa sexta-feira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que entre a arvore e a parede da casa havia um tapume de cerca viva(pinh\u00e3o) e n\u00e3o pudemos divisar ningu\u00e9m; mas as primeiras pedras nos fizeram lembrar da alma do seu Jo\u00e3o que poderia estar ali atropelando as crian\u00e7as de seu quintal amaldi\u00e7oado.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e ao ver-nos daquele jeito quis saber do acontecido e acabou dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Bem-feito! Isso \u00e9 para voc\u00eas aprenderem respeitar terreno de &#8220;casa mal-assombrada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Limeira mar\u00e7o de 1963<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ALMA DO OUTRO MUNDO Conto Francisco Piccirilo Em uma pequena localidade do interior paulista, ai pelo ano de 1924, existia um casal, que desde as bodas nupcial, nunca viveu bem. D. 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