{"id":138,"date":"2024-02-10T12:47:19","date_gmt":"2024-02-10T15:47:19","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=138"},"modified":"2024-03-16T10:01:13","modified_gmt":"2024-03-16T13:01:13","slug":"farrapo-humano","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/farrapo-humano\/","title":{"rendered":"FARRAPO HUMANO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>FARRAPO HUMANO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conto Francisco Piccirilo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Esta mis\u00e9ria n\u00e3o pode continuar assim!&#8230; Isto aqui n\u00e3o \u00e9 mais vida!&#8230; S\u00f3 mesmo pegando a trouxa e desaparecer por este mundo afora!&#8230; Deus n\u00e3o existe mesmo; se esistis se n\u00e3o deixaria a gente sofrer desta maneira!<\/p>\n\n\n\n<p>Esses e outros mon\u00f3logos, Pedro, um homem amadurecido pela idade, trabalho e a vida miser\u00e1vel que levava, amea\u00e7ava c\u00e9u e terra em seu misero casebre, enquanto sua filha &#8220;Farrapo Humano&#8221;, mocinha de uns dezesseis anos de idade, sentada num caix\u00e3o velho de madeira, toda esfarrapada, com seus cabelos longos cobrindo as costas e os seios; olhos voltados para o ch\u00e3o batido, ouvia silenciosa os gritos, pragas improp\u00e9rios que seu pai, revoltado, soltava pela boca, sem nenhuma rea\u00e7\u00e3o. Que poderia ela fazer? Ficara orf\u00e3 de m\u00e3e e nem sabia qual era realmente seu nome e idade. Pai e filha moravam no rancho com mato por todos os lados e na frente e aos fundos, um grande rio, para diferenciar o l\u00fagubre lugar. Viviam, como podiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro pescava e depois atravessava o bra\u00e7o do rio e percorria alguns quil\u00f4metros para vender numa pequena cidade, o produto de seu trabalho, enquanto Farrapo ficava sozinha, cuidando dos afazeres dom\u00e9sticos da pobre cabana.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecido por todos os moradores do lugarejo como Pedro Pescador,&nbsp;na&nbsp;realidade, Pedro era um homem fracassado. Quando se&nbsp;&nbsp; casou, j\u00e1 com seus trinta anos, trouxera a mulher para aquela ilha e continuou pescando. Achava que a profiss\u00e3o era suficiente para se viver. Mas vieram os filhos e a familia aumentara. Entretanto, os filhos morriam por doen\u00e7a, defici\u00eancias alimentares e outros males da regi\u00e3o. Quando Farrapo Humano completou cinco anos, sua m\u00e3e, Assunta de Jesus, mulher franzina, morena, quando se casara teria uns quinze anos, embora sentisse que o local e o rendimento do marido n\u00e3o eram coisas plaus\u00edveis para uma fam\u00edlia viver longe dos poucos recursos que a pequena cidade dispunha, achando-se gravemente enferma, faleceu antes de terminar com mais um parto.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentindo-se triste desde o primeiro acontecimento f\u00fanebre de sua fam\u00edlia, Pedro ficou tremendamente chocado com a perda irrepar\u00e1vel de sua fiel companheira. Ela era, por pior que fosse a vida, seu farol. A morte da mulher causou-lhe profundo abatimento. Agora, vi\u00favo e com uma filha de cinco anos, a \u00fanica que conse guira sobreviver, n\u00e3o se sabe por que, veio aumentar os sofrimentos daquela pobre criatura. Pedro, desse dia, passou a levar uma vida des- controlada. Pescava e n\u00e3o pescava; as vezes ca\u00e7ava, para variar. Quando levava&nbsp;seus&nbsp;peixes&nbsp;a cidade, voltava na base da cacha\u00e7a e deitava-se na r\u00eade como um animal. Resmungava, blasfemava, levantava-se, batia estupidamente na filha, para se desabafar; depois chorava copiosamente como uma crian\u00e7a e implorava perd\u00e3o; lastimava-se contra tudo e contra todos; parecia um semilouco.<\/p>\n\n\n\n<p>Farrapo Humano, para n\u00e3o ficar n\u00fa, vestia uns trapos de pano, sendo por seu pai chamada de Farrapo. Quando ele adotou esse apelido, uma vez que o Registro Civil e muito menos a Igreja aceitariam esse nome, ela passou a se conhecer. Realmente seu verdadeiro nome n\u00e3o existia; nunca fora registrada e nem batiza da. Para a menina estava muito bom; tinha, pelo menos, um qualificativo, chamava-se Farrapo Humano. A menina nasceu e cresceu naquele ambi ente sem nunca conhecer outra coisa. Ela, coitada, pouco falava, pois n\u00e3o tinha com quem con versar. Imitava muito bem certos p\u00e1ssaros e alguns animais, A vida para aquelas criaturas caminhava de mal a pior; n\u00e3o havia a menor possibi- lidade de uma melhora, quer por parte de Pedro, que s\u00f3 sabia pescar e levar os peixes \u00e0 cidade; quer por parte da menina, que n\u00e3o tinha nada a fazer. Os afazeres do lar pouco&nbsp;servi\u00e7os&nbsp;lhe&nbsp;dava a menos que se embrenhasse pelo mato ou atra vessasse o grande rio, mas isso ela n\u00e3o fazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou por aquelas bandas um pequeno navio com alguns pescadores e ca\u00e7adores e ao longe avistaram na praia um corpo de mulher. O dia estava frio e a visibilidade razo\u00e1vel. Julgaram, pelas apar\u00eancias, fosse uma india e com os devidos cuidados aventuraram-se at\u00e9 a margem. Eram tr\u00eas, muito bem armados para pesc\u0430s \u0435 \u0441\u0430- \u00e7as; poderiam se defender muito bem. A mo\u00e7a, com a presen\u00e7a daquele ve\u00edculo e homens estranhos correu para dentro de seu casebre, mas n\u00e3o pode oferecer resist\u00eancia a senha dos malfeitores, avidos de atos animalescos, quando perce- beram que se tratava de uma mulher indefesa. Ela tentou bravamente contra o bando, mas n\u00e3o pode vencer tr\u00eas monstros; o mais mo\u00e7o teria vinte e cinco anos e o mais velho, uns trinta e cinco anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>A estupidez, as vezes tornam os homens mais agressivos que os pr\u00f3prios animais. Assim, enquanto Pedro, na cidade vendia o fruto de seu trabalho, em sua casa de sap\u00e9, tr\u00eas homens saiam satisfeitos; tinham realizados uma boa ca\u00e7ada; tornaram-se pela primeira vez, ca\u00e7adores de corpo humano, contra uma menina mo\u00e7a desprotegida.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela hora de costume Pedro&nbsp;regressou, mas estava bom aquele dia; n\u00e3o havia tomado nada. Viera pensando na vida; descobrir um jeito de resolver o problema de sua triste mis\u00e9ria. Sair dali e morar na cidade, para dar melhor ambiente \u00e0 filha. Quando penetrou em sua cabana, encontrou um cad\u00e1ver vivo. Reconheceu imediatamente a profundeza da desgra\u00e7a causada \u00e0 sua filha. Pedro tinha seus defeitos, mas sabia ser pai e o desespero tomou-lhe conta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Farrapo! gritou em alta voz, como um louco. Que lhe fizeram?!.. diga-me, conta a seu pai!.. quem foi esse maldito?!..<\/p>\n\n\n\n<p>Com as m\u00e3os na cabe\u00e7a, desesperado, batia e rebatia os p\u00e9s; saia e entrava dentro da choupana; n\u00e3o sabia por quem apelar. Ao redor n\u00e3o havia nada; somente mato e \u00e1gua. A noite chegava tenebrosa e assustadoramente. A mo\u00e7a continuava quase sem vida, abandonada no ch\u00e3o batido, esvaindo sangue. Somente seus olhos semicerrados e os l\u00e1bios movimentando vagarosa- mente, querendo contar alguma coisa, demonstrava um pouco de vida naquele trapo de gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Amargurados, tristes e doentes, pai e filha passaram, sob a luz de um lampi\u00e3o a que querosene, aquela noite fat\u00eddica. La fora, chuvas, ventos, rel\u00e2mpagos e trovoadas bombardeavam o triste e desgra\u00e7ado s\u00edtio com seus&nbsp;ocupantes.&nbsp;O grande rio, com os balan\u00e7os de suas ondas, parecia arrasar o m\u00edsero casebre. Um pouco de ora\u00e7\u00f5es, para lembrar os tempos em que Pedro frequentara o catecismo nesse momento ajudava vencer as tormentas funestas. Orando e velando a filha, a noite, com grande custo, passou, e com o clarear do dia j\u00e1 mais tranquilo, Pedro buscou no mato algumas ervas e ra\u00edzes para os tratamentos caseiros muito comum entre os selvagens e brancos que vivem em contatos com a natureza. Sete dias depois a mocinha, com grande esfor\u00e7o, vencendo uma dif\u00edcil batalha, conseguira levantar-se para alegria de seu pai sofredor.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Foram tr\u00eas iguais a voc\u00ea, que passaram no rio! disse a mo\u00e7a com muita dificuldade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Malditos!&#8230; se eu pegar, fa\u00e7o picadinhos de cada um!&#8230; acabo com a ra\u00e7a de todos!&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora mostrasse uma disposi\u00e7\u00e3o f\u00e9rrea naquele momento, para impressionar a menina, Pedro n\u00e3o faria nada. Sem ser comerciante, estava falido moral e financeiramente. Ia at\u00e9 a cidadezinha, vendia sua pescada e depois bebia em \u00e1lcool o fruto de seu trabalho, pouco importando-se com sua filha no meio do mato, isolada de uma civiliza\u00e7\u00e3o, uma vez que&nbsp;ela&nbsp;nunca&nbsp;reclamou e nem sabia reclamar qualquer direito. Entretanto, se naquele desditoso dia Pedro, voltando \u00e0 sua morada isento de bebida, pensava em mudar para melhor, agora com o mal causado \u00e0 sua filha, trouxera-lhe mais um motivo; resolvera definitivamente mudar. Mas uma coisa parecia prend\u00ea-lo aquele misero lugar; sua mulher e filhos sepultados ao lado do casebre, constitu\u00eda um pequeno cemit\u00e9rio. Como abandona-lo?!..<\/p>\n\n\n\n<p>Farrapo Humano continuava n\u00e3o reclamando nada. La at\u00e9 o cemit\u00e9rio de sua m\u00e3e e irm\u00e3os; contemplava pacientemente os montes de terras e voltava. Vivia quase como um animal do mesti\u00e7ado. Sentiu na pr\u00f3pria carne as dores causadas pela estupidez humana, mas continuou vi- vendo pacatamente. Seu pai continuava preocupa- do com novos e poss\u00edveis acontecimentos, mas ainda n\u00e3o sabia como resolv\u00ea-los. Sobre a trag\u00e9dia havidas com a menina n\u00e3o comunicara a ningu\u00e9m. Assim passaram-se mais algumas semanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro fora a cidade, como sempre costumava ir, contudo, desde o brutal estupro come tido contra sua Farrapo, seu cora\u00e7\u00e3o pulsava mais forte e seu c\u00e9rebro, por uma vingan\u00e7a. Isso o for\u00e7ava voltar sempre mais cedo e cauteloso, pois esperava a qualquer momento encontrar em seu s\u00edtio os mesmos&nbsp;criminosos.<\/p>\n\n\n\n<p>O dia estava muito bonito; Pedro foi a cidade, mas voltou cedo e quando se aproximava com sua canoa avistou um barco e da cabana saiam gritos de socorros. Pedro correu e com a espingarda deu pelo gatilho; os invasores ouvindo tiros fugiram, mas ele preparado, descarregou mais tiros matando um e ferindo outros que lograram fugir com o barco. Desta vez Pedro conseguira salvar Farrapo e vingar parte da desgra\u00e7a causada a ela. O morto seria, pelo aspecto, o mais velho; os outros n\u00e3o conseguira conhecer.<\/p>\n\n\n\n<p>A mo\u00e7a se refez do susto e chorou histericamente. Depois, sentado no banco de madeira e com seus olhos sempre voltados para o ch\u00e3o batido, ouvia seu pai praguejar, lamentar, blasfemar e protestar. Para ele n\u00e3o haveria mais sossego no terreno. Tinha que abandonar aquela ilha. A noite viera; o lampi\u00e3o a querosene clareava o pequeno c\u00f4modo; a espingarda carregada e pronta para qualquer emerg\u00eancia. Pedro ainda desconfiava de alguma surpresa. A noite passou, clareou novamente o dia e felizmente nada aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase ao meio-dia um vapor apareceu com diversos passageiros. Pedro estava pescando e viu o barco se aproximar at\u00e9 perto de si. O desespero tomou conta da mo\u00e7a&nbsp;e&nbsp;ela&nbsp;desapareceu para dentro do casebre. No navio viera a Pol\u00edcia para prender o assassino. Pedro conheceu a caravana; dois soldados, um escriv\u00e3o, o delegado, o vig\u00e1rio e uma das v\u00edtimas, denunciam-te do ocorrido.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse homem atirou em mim, no Flam\u00ednio e matou o Juca!&#8230; disse logo a suposta v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro, tem alguma coisa a dizer, protestar, ou defender-se das acusa\u00e7\u00f5es? perguntou o Delegado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro, tomado de emo\u00e7\u00e3o, ficou calado. Em nome da lei declaro criminoso e prendo-o pela morte de Joaquim e ferimentos graves em Flaminio e neste aqui, repetiu a autoridade policial.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa declara\u00e7\u00e3o, o Delegado mandou que os soldados prendessem Pedro, enquanto o Escriv\u00e3o lavrava o termo de pris\u00e3o em flagrante, com as testemunhas ali presentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Antonio Ponte Preta, o delator, era um rapaz de uns vinte e cinco anos de idade, com cabelos e barba grande, bastante corpulento e de estatura mediana. Estava vestido com roupa caqui, sem palet\u00f3 e usava em seus p\u00e9s um par de botas cano longo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os soldados iam&nbsp;p\u00f4r&nbsp;as&nbsp;m\u00e3os&nbsp;para efetuar a pris\u00e3o, o sacerdote, que logo compreendera a situa\u00e7\u00e3o, pediu licen\u00e7a ao Delegado e achou melhor conhecer a causa da den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Padre Inoc\u00eancio, homem acostumado com a vida do sert\u00e3o, tinha uns cinquenta anos de idade. Viera da grande cidade logo ap\u00f3s sua ordena\u00e7\u00e3o. Sentindo a necessidade espiritual, material e social do povo, nunca mais deixou a pobre par\u00f3quia, apenas grande em seu tamanho territorial. Num relance de observa\u00e7\u00e3o notou a gravidade do que poderia ter acontecido e a honestidade do denunciado. Enquanto o Sacerdote procurava ouvir e conhecer a causa do crime, Antonio protestava contra a intromiss\u00e3o do bom Padre, demonstrando um nervosismo. Ia de um lado para outro; acendia cigarros um atras do outro; tirava o chap\u00e9u, enxugava o rosto e a cabe\u00e7a com um len\u00e7o vermelho. Somente o Delegado e seus auxiliares permaneciam calmos conversando sobre diversos assuntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chamar Pedro para dentro da casa, como se fosse ouvi-lo em confiss\u00e3o, foi advertido por Antonio, que insistiu.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Padre Inoc\u00eancio, n\u00f3s est\u00e1vamos ca\u00e7ando aqui por perto, quando esse homem atirou estupidamente em mim e nos outros!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Conhe\u00e7o muito bem voc\u00ea e j\u00e1 ouvi sua hist\u00f3ria! Precisamos agora&nbsp;ouvir&nbsp;tamb\u00e9m&nbsp;o denunciado, para que a Pol\u00edcia n\u00e3o cometa erros sem mais nem menos. Nunca h\u00e1 uma causa sem motivos! &nbsp;continuou calmamente o bom representante de Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Vamos Pedro, voc\u00ea sumiu de meus olhos e que vejo agora neste lugar? isto \u00e9 vida de um crist\u00e3o levar? pode ser pescador, como foi S\u00e3o Pedro; ser ca\u00e7ador, como foram outros santos, mas nenhum trabalho, por mais insignificante e humilde que seja rebaixa o homem a esp\u00e9cie selvagem!&#8230;;<\/p>\n\n\n\n<p>Cabisbaixo, Pedro n\u00e3o respondia nada. Limitava somente em ouvir o serm\u00e3o. Sabia o caminho da cidade, dos fregueses, do boteco, mas da igreja n\u00e3o sabia mais. Desde quando se casou e veio morar no mato, a beira do grande rio, parou de frequentar os of\u00edcios religiosos; nem mesmo para batizar seus filhos, coisa t\u00e3o comum entre os homens, para terem compadres, Pedro fizera. Seus filhos nasciam, morriam e eram sepultados ao lado do casebre.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Pedro&#8230; insistiu o sacerdote com mais autoridade. O que voc\u00ea me responde?<\/p>\n\n\n\n<p>A comitiva continuava calmamente esperando alguns resultados. Somente Antonio mantinha-se impaciente. A verdade deveria ser esclarecida ali mesmo, segundo as&nbsp;leis&nbsp;do&nbsp;sert\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Pedro continuava silencioso; n\u00e3o sabia como explicar a verdadeira causa da desgra\u00e7a. Ele n\u00e3o foi contar a ningu\u00e9m, muito menos \u00e0 Pol\u00edcia, entretanto, sua filha, al\u00e9m de sofrer as sevicias de alguns monstros, entre eles o denunciante, ali presente, esteve \u00e0 beira da morte durante muito dias. Farrapo Humano, principal origem dessa desgra\u00e7a, continuava escondida e amedrontada a um canto da misera casinha; cabe\u00e7a baixa e olhos voltados para o ch\u00e3o batido, ouvia o di\u00e1logo entre o padre e seu pai, sem entender aquela linguagem. Ela queria contar, expor o que houve entre si e a defesa praticada por seu pai, para salv\u00e1-la, mas continuava l\u00e1 dentro encurralada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Conte alguma coisa, Pedro, voltou o padre a insistir. Por que voc\u00ea matou o Joaquim e feriu os outros? Afinal, eles n\u00e3o podiam ca\u00e7ar aqui?<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro ia responder, mas saiu de dentro do rancho a verdadeira v\u00edtima, um farrapo de gente. Todos voltaram-se surpresos para aquele corpo semisselvagem, que se dirigia com muito acanhamento ao grupo. A mo\u00e7a, coitada, acostumada viver sozinha uma ilha, pouco sabem do se expressar, tremula por ver-se diante de um grupo de homens diferentes ao seu mundo, com a voz dificultosa, apontou ao&nbsp;sacerdote&nbsp;um&nbsp;de seus criminosos e contou em sua linguagem, o sucedido dias antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de seu natural mod\u00e9stia, o grupo, ao ouvir a narra\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica da mocinha, volveu-se revoltado para o denunciante e o deteve, pois Antonio, ao ver a mo\u00e7a sair da casa tentou fugir desesperado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Eu desconfiava que a hist\u00f3ria n\u00e3o estava bem contada, dizia o velho sacerdote. Conhe\u00e7o os homens da cidade e do mato tamb\u00e9m, por isso fiz quest\u00e3o de acompanhar-vos nesta dilig\u00eancia; e dirigindo-se ao Delegado recomenda que Antonio, ali presente e Jo\u00e3o Flaminio fossem presos e julgados de acordo com o crime que praticaram na invas\u00e3o de propriedade alheia, viola\u00e7\u00e3o do lar e do crime sexual perpetrado numa menor. Pedro praticara um ato de leg\u00edtima defesa em favor de sua filha e de seu lar, embora t\u00e3o miser\u00e1vel, como era, e voltando-se para o homem disse-lhe. E quanto a voc\u00ea, meu filho, voltar\u00e1 para a cidade com sua filha; isto aqui n\u00e3o \u00e9 lugar para voc\u00eas viverem!<\/p>\n\n\n\n<p>Pai e filha foram para a cidade no mesmo navio. Farrapo Humano foi batizada e registrada, recebendo o nome de Maria das Dores, pelos sofrimentos recebidos durante aqueles anos no inferno verde do sert\u00e3o.&nbsp;No&nbsp;local&nbsp;ficou um pequeno cemit\u00e9rio onde jaziam os restos mortais da esposa e filhos inocentes de Pedro Pescador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Limeira 01 de agosto 1970.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-comments\">\n\n\n\n\n\n\t<div id=\"respond\" class=\"comment-respond wp-block-post-comments-form\">\n\t\t<h3 id=\"reply-title\" class=\"comment-reply-title\">Leave a Reply <small><a rel=\"nofollow\" id=\"cancel-comment-reply-link\" href=\"\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/138#respond\" style=\"display:none;\">Cancel reply<\/a><\/small><\/h3><form action=\"https:\/\/picciblog.com.br\/wp-comments-post.php\" method=\"post\" id=\"commentform\" class=\"comment-form\"><p class=\"comment-notes\"><span id=\"email-notes\">Your email address will not be published.<\/span> <span class=\"required-field-message\">Required fields are marked <span class=\"required\">*<\/span><\/span><\/p><p class=\"comment-form-comment\"><label for=\"comment\">Comment <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <textarea id=\"comment\" name=\"comment\" cols=\"45\" rows=\"8\" maxlength=\"65525\" required=\"required\"><\/textarea><\/p><p class=\"comment-form-author\"><label for=\"author\">Name <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"author\" name=\"author\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"245\" autocomplete=\"name\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-email\"><label for=\"email\">Email <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"email\" name=\"email\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"100\" aria-describedby=\"email-notes\" autocomplete=\"email\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-url\"><label for=\"url\">Website<\/label> <input id=\"url\" name=\"url\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"200\" autocomplete=\"url\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-cookies-consent\"><input id=\"wp-comment-cookies-consent\" name=\"wp-comment-cookies-consent\" type=\"checkbox\" value=\"yes\" \/> <label for=\"wp-comment-cookies-consent\">Save my name, email, and website in this browser for the next time I comment.<\/label><\/p>\n<p class=\"form-submit\"><input name=\"submit\" type=\"submit\" id=\"submit\" class=\"submit\" value=\"Post Comment\" \/> <input type='hidden' name='comment_post_ID' value='138' id='comment_post_ID' \/>\n<input type='hidden' name='comment_parent' id='comment_parent' value='0' \/>\n<\/p><\/form>\t<\/div><!-- #respond -->\n\t<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FARRAPO HUMANO Conto Francisco Piccirilo &#8212;Esta mis\u00e9ria n\u00e3o pode continuar assim!&#8230; Isto aqui n\u00e3o \u00e9 mais vida!&#8230; S\u00f3 mesmo pegando a trouxa e desaparecer por este mundo afora!&#8230; Deus n\u00e3o existe mesmo; se esistis se n\u00e3o deixaria a gente sofrer desta maneira! 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