{"id":140,"date":"2024-02-10T12:49:09","date_gmt":"2024-02-10T15:49:09","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=140"},"modified":"2024-03-16T10:01:41","modified_gmt":"2024-03-16T13:01:41","slug":"mama","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/mama\/","title":{"rendered":"MAMA"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>MAMA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conto Francisco Piccirilo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o adianta nada voc\u00ea ficar a\u00ed com essa cara de pamonha! Al\u00e9m de n\u00e3o resolver seu problema, complica ainda o meu.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa advert\u00eancia muito natural, Teresa Bonita, velha e indigente, moradora num casebre no bairro do Barro Preto, periferia de S\u00e3o Luiz, alguns quil\u00f4metros distantes do centro, chamava aten\u00e7\u00e3o de Mama, jovem inexperiente da vida, enganada por um mo\u00e7o aventureiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama, conforme era conhecida na intimidade familiar, ap\u00f3s ter sido seduzida por Alu\u00edsio Silveira, viajante vendedor de artigos cosm\u00e9ticos, foi expulsa de seu lar, porque seu pai, homem da &#8220;linha dura&#8221;, sentiu-se ultrajado na honra de sua fam\u00edlia, pelo procedimento leviano de sua filha de dezesseis anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Morando em cidade pequena, onde os passos e modos de cada pessoa s\u00e3o contados e medidos, al\u00e9m de comentados pela popula\u00e7\u00e3o muito senhora da honra, dignidade e pudor, Mama, depois de expulsa da casa paterna, s\u00f3 restava seguir um caminho, a vida mundana; ser mulher, sem marido, de todos os homens \u00e1vidos de mocinhas inexperientes. Mas sua idade e seu estado de gravidez, no momento, n\u00e3o permitiam&nbsp;essa&nbsp;solu\u00e7\u00e3o e S\u00e3o Luis n\u00e3o dispunha de &#8220;Casa de toler\u00e2ncia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Vagando pelas ruas da pequena cidade, sem destino, sem experi\u00eancia, sem nada; passando frio e fome, enjeitada por todas as fam\u00edlias, Mama acabou desmaiando sob o teto da ponte ferrovi\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram quase cinco horas da tarde. Teresa Bonita, ap\u00f3s ter feito seu trabalho di\u00e1rio, isto \u00e9, visitado as fam\u00edlias para ganhar alguns cruzeiros, roupas e comida, ia regressando a choupana, quando deparou com a infeliz no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo ouvido coment\u00e1rios sobre a sorte da jovem infeliz, compadeceu-se dela, isso porque, quando mocinha e inexperiente da vida, tivera a mesma desventura.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixando sua muamba ao lado, tratou de acudir a menina e ap\u00f3s faz\u00ea-la voltar a si, conduziu-a, com bastante dificuldade, para seu rancho. L\u00e1, embora n\u00e3o tivesse o mesmo agasalho da casa paterna, tinha pelo menos um lugar onde repousar, alimentar-se e pensar no seu futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dias correram, Mama, por\u00e9m, n\u00e3o conseguia compreender sua sorte, nem mesmo cuidava em preparar-se para&nbsp;ser&nbsp;m\u00e3e&nbsp;e&nbsp;isso afligia em muito. Teresa Bonita vendo que \u00e9 sua situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se agravava, muitas fam\u00edlias na cidade negavam-lhe servi\u00e7os e aux\u00edlios, s\u00f3 porque estava amparando uma corrompida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Se continuar desse jeito, dentro de mais alguns dias n\u00e3o teremos o que comer. Aux\u00edlio n\u00e3o me d\u00e3o e trabalhar, deixando voc\u00ea assim como est\u00e1, n\u00e3o posso!<\/p>\n\n\n\n<p>Teresa Bonita, com seus cinquenta e cinco anos mais ou menos, morava num casebre j\u00e1 alguns anos, doado por um sitiante, seu antigo admirador. Tinha esse nome porque, quando mo\u00e7a s\u00f3 era conhecida por Teresa, ocultando seu verdadeiro nome, pois descendia de fam\u00edlia ilustre. Bonita realmente, passou a ser assim chamada. Na sua plenitude de mocidade e aventuras, o nome caia-lhe muito bem e orgulhava-se disso. Hoje, entretanto, o nome era-lhe verdadeiramente um contraste. Velha, feia, maltrapilha, indigente, mas conservava um pouco de bondade ou reconhecimento pela ignom\u00ednia social. Achava ela que Mama devia ser perdoada e agasalhada na casa de seus pais, uma vez que a sociedade, hip\u00f3crita, como era, respons\u00e1vel por essa trag\u00e9dia, n\u00e3o quiz receb\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Passado mais algumas semanas e aproximando-se a \u00e9poca em que Mama deveria ter a crian\u00e7a, Teresa Bonita, sempre agasalhando a jovem, come\u00e7ou a preocupar-se&nbsp;mais,&nbsp;pois&nbsp;n\u00e3o dispondo de recursos financeiros para atender as despesas com o parto da futura m\u00e3e e n\u00e3o desejando responsabilizar-se pelo que poderia acontecer, resolveu. Apelar para a pr\u00f3pria fam\u00edlia da pobre mo\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a decis\u00e3o de Teresa, Mama n\u00e3o concordou, mas a velha, come\u00e7ando a se arrepender de ajud\u00e1-la, foi at\u00e9 a casa de Rom\u00e3o Pacheco.<\/p>\n\n\n\n<p>Rom\u00e3o Pacheco e sua fam\u00edlia sabia que Teresa Bonita estava dando agasalho a Mama, agasalho imundo e indigno do que poderia dar a ela, mas preferindo manter-se no orgulho de honestidade impediu a vinda da filha, mais do que isso, continuou negando o perd\u00e3o que todo o crist\u00e3o tem, mormente quando enganada. Rom\u00e3o, consciente de sua ilibada consci\u00eancia n\u00e3o esperava que a velha indigente fosse at\u00e9 sua casa e exigir assist\u00eancia material e paterna \u00e0 mo\u00e7a. Assim, ao abrir a porta, com as batidas que ouvira, Rom\u00e3o, perplexo exclamou!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Voc\u00ea aqui, sua&#8230; sua imunda!&#8230; N\u00e3o foi s\u00f3 a exclama\u00e7\u00e3o. Rom\u00e3o tivera um amea\u00e7am de vertigem e rodopiando pela sala, sentou-se numa cadeira. Filisbina, seu filho Raul e a menina Isabel, acorreram \u00e0 sala ao ouvir as palavras do chefe.<\/p>\n\n\n\n<p>Rom\u00e3o Pacheco n\u00e3o era&nbsp;homem&nbsp;rico,&nbsp;mas como oficial administrativo da Prefeitura, grosava de uma certa proje\u00e7\u00e3o no meio social e gra\u00e7as a isso, procurava mostrar sua integridade moral e dar exemplo de chefe de fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem a menor preocupa\u00e7\u00e3o com as palavras e amea\u00e7a de desmaio de Rom\u00e3o, Teresa Bonita entrou pela casa e acomodou-se numa cadeira sob a admira\u00e7\u00e3o de todos ali presentes. At\u00e9 ela que foi muitas vezes auxiliada por aquela gente, depois de estar socorrendo Mama, havia sido abolida dos minguados favores que recebia. Rom\u00e3o punha-se \u00e0 sua presen\u00e7a, mostrando \u00e0 mulher e filhos, sua autoridade de chefe exemplar. Enquanto protestava contra a presen\u00e7a da maltrapilha em sua casa, Teresa aguardava uma oportunidade para explicar sua presen\u00e7a. Por fim falou.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Todos os seus modos e protestos n\u00e3o me espantam e muito menos me interessam. Sua filha est\u00e1 em meu casebre \u00e0s v\u00e9speras de ter crian\u00e7a. Voc\u00ea, como chefe exemplar que quer ser, mas n\u00e3o \u00e9, ao inv\u00e9s de expuls\u00e1-la, devia ter ido atr\u00e1s do autor e faz\u00ea-lo casar-se. disse calmamente Teresa, sob a estupefa\u00e7\u00e3o dos presentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de uma amea\u00e7a cuja consequ\u00eancia iria ser funesta para Rom\u00e3o, Teresa Bonita&nbsp;continuou. Dou-lhe vinte e quatro horas de prazo para voc\u00ea recolher sua filha e cuidar dela, uma vez que a Sociedade n\u00e3o cuida e eu que vivo de mendigar, tamb\u00e9m n\u00e3o posso, concluiu a visitante.<\/p>\n\n\n\n<p>Ditando essa ordem, a mendiga retirou-se calmamente, deixando atras de si uma familia outrora orgulhosa, agora bastante confusa. Rom\u00e3o, entretanto, sabia sobre o qu\u00ea,<\/p>\n\n\n\n<p>Teresa o amea\u00e7ou. Pensando bem, o crime j\u00e1 est\u00e1 consumado e todo o mundo aqui na cidade sabe disso, resta a n\u00f3s irmos buscar nossa filha e cuidarmos dela e do futuro neto que h\u00e1 de vir, concluiu Rom\u00e3o, dirigindo-se a sua mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Filisbina n\u00e3o se opunha, mas respeitando ordens do marido, a tudo concordava.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim do mesmo dia, Mama, com os olhos cheios de l\u00e1grimas, n\u00e3o sabendo se de alegria ou dores, adentrava novamente na casa que avia nascer, enquanto isso, Rom\u00e3o trazia apressadamente a parteira, que sem perda de tempo acudiu a jovem m\u00e3e. Dentro de algumas horas um choro de crian\u00e7a alegrava os membros daquele lar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Limeira abril de 1967<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-comments\">\n\n\n\n\n\n\t<div id=\"respond\" class=\"comment-respond wp-block-post-comments-form\">\n\t\t<h3 id=\"reply-title\" class=\"comment-reply-title\">Leave a Reply <small><a rel=\"nofollow\" id=\"cancel-comment-reply-link\" href=\"\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/140#respond\" style=\"display:none;\">Cancel reply<\/a><\/small><\/h3><form action=\"https:\/\/picciblog.com.br\/wp-comments-post.php\" method=\"post\" id=\"commentform\" class=\"comment-form\"><p class=\"comment-notes\"><span id=\"email-notes\">Your email address will not be published.<\/span> <span class=\"required-field-message\">Required fields are marked <span class=\"required\">*<\/span><\/span><\/p><p class=\"comment-form-comment\"><label for=\"comment\">Comment <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <textarea id=\"comment\" name=\"comment\" cols=\"45\" rows=\"8\" maxlength=\"65525\" required=\"required\"><\/textarea><\/p><p class=\"comment-form-author\"><label for=\"author\">Name <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"author\" name=\"author\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"245\" autocomplete=\"name\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-email\"><label for=\"email\">Email <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"email\" name=\"email\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"100\" aria-describedby=\"email-notes\" autocomplete=\"email\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-url\"><label for=\"url\">Website<\/label> <input id=\"url\" name=\"url\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"200\" autocomplete=\"url\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-cookies-consent\"><input id=\"wp-comment-cookies-consent\" name=\"wp-comment-cookies-consent\" type=\"checkbox\" value=\"yes\" \/> <label for=\"wp-comment-cookies-consent\">Save my name, email, and website in this browser for the next time I comment.<\/label><\/p>\n<p class=\"form-submit\"><input name=\"submit\" type=\"submit\" id=\"submit\" class=\"submit\" value=\"Post Comment\" \/> <input type='hidden' name='comment_post_ID' value='140' id='comment_post_ID' \/>\n<input type='hidden' name='comment_parent' id='comment_parent' value='0' \/>\n<\/p><\/form>\t<\/div><!-- #respond -->\n\t<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAMA Conto Francisco Piccirilo N\u00e3o adianta nada voc\u00ea ficar a\u00ed com essa cara de pamonha! 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