{"id":146,"date":"2024-02-10T12:54:19","date_gmt":"2024-02-10T15:54:19","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=146"},"modified":"2024-03-16T10:03:49","modified_gmt":"2024-03-16T13:03:49","slug":"o-cabrito-fantasma","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/o-cabrito-fantasma\/","title":{"rendered":"O CABRITO FANTASMA"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O CABRITO FANTASMA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conto Francisco Piccirilo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>____H\u00e1 pessoas que n\u00e3o acreditam em almas do outro mundo. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o acreditava, e por diversas raz\u00f5es. Primeiro, porque nunca tinha visto e segundo, porque diziam que elas podiam aparecer sob diversas formas, inclusive de animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem dizia isso era Pedro, um homem j\u00e1 bem amadurecido pelos anos e trabalhos que desenvolvera no seu tempo de mo\u00e7o e homem j\u00e1 formado, morando numa pequena cidade do interior, onde havia diversas f\u00e1bricas de fogos de artif\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as pessoas que moram em pequenos lugarejos geralmente s\u00e3o presas f\u00e1ceis de contos imaginativos, principalmente de assombra\u00e7\u00f5es, isso porque, o aparecimento de almas do outro mundo, n\u00e3o passam de pura imagina\u00e7\u00e3o e para aqueles que se julgam valentes e corajosos, um dia acabam-se embrenhando em acontecimentos l\u00fagubres e passam depois a contar para as pessoas que acreditam ou n\u00e3o, contanto que o contador de hist\u00f3ria consiga encontrar um punhado de crentes. Segundo eles, o contar representa um desabafo remorso, isto \u00e9, est\u00e3o pagando os pecados, porque n\u00e3o acreditaram nos acontecimentos \u00e0s pessoas que viram.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme Pedro contava, a pequena cidade que s\u00f3 tinha f\u00e1bricas de fogos,&nbsp;de&nbsp;vez&nbsp;em quando ocorriam explos\u00f5es e muitas pessoas morriam e outras ficavam aleijadas, porque perdiam bra\u00e7os, pernas ou mesmo ficavam queimados, cujas cicatrizes n\u00e3o desapareciam nunca. Eu mesmo trabalhei numa dessas f\u00e1bricas e fui testemunha de v\u00e1rios casos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os crentes costumavam comentar que muitos que morriam eram pecadores, descrentes, goza- dores e faziam outras considera\u00e7\u00f5es sobre os mortos e eram justamente esses que morriam em estado pecaminoso, que vinham espantar ou atrapalhar a vida dos vivos. Outros acreditavam que as almas estavam penando e necessitavam de preces, missas e outros sacrif\u00edcios em favor delas. As almas dos bons, as vezes at\u00e9 ajudavam os vivos atrapalhados com sorte nos jogos de bichos ou loteria, enquanto as almas dos ruins, essas vinham atrapalhar mais ainda a vida da gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi isso que aconteceu a Pedro e ele passou a contar para as pessoas, como se estivesse pagando seus pecados e redimindo seus remorsos, por n\u00e3o ter acreditado em almas do outro mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos eu, meu pai e mais dois irm\u00e3os, Victor e Manoel, ca\u00e7ando num mato distante uns sete quil\u00f4metros de casa; era um domingo, \u00fanico dia que se podia descansar. A ca\u00e7a daquele dia n\u00e3o foi nada interessante e&nbsp;eu&nbsp;lamentava&nbsp;o dia perdido entre o mato dando tiros ao vento. Reconhecendo que n\u00e3o adiantava ficar mais tempo, resolvemos voltar, pois \u00e0quela hora j\u00e1 era meio tarde. O sol com sua claridade estava desaparecendo. Voltamos e ao chegarmos na altura da f\u00e1brica de fogos onde n\u00f3s todos trabalhamos, (lugar onde morreram muitos oper\u00e1rios devido as explos\u00f5es de mat\u00e9rias inflam\u00e1veis), propus a meu pai e irm\u00e3os atravessarmos o terreno da mesma. A dist\u00e2ncia seria reduzida e com isso economizar\u00edamos cerca de uns tr\u00eas quil\u00f4metros de ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu pai n\u00e3o quiz e muito menos meus irm\u00e3os concordaram com a proposta. Alegaram que o port\u00e3o estava fechado, que teriam de trepar imitando malabaristas para poderem transp\u00f4-lo. Fui sozinho e garanti que muito cedo estaria em casa descansando.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto onde est\u00e1vamos ao port\u00e3o teria uns cento e cinquenta metros e do port\u00e3o em casa mais uns cem metros. O port\u00e3o ficava numa baixada, mas o terreno at\u00e9 em casa n\u00e3o era muito aclive. O p\u00e1tio era todo gramado, no entanto, mal andei uns quarenta metros escutei o berro asfixiante de um cabrito. Minha m\u00e3e costumava levar o cabrito que t\u00ednhamos em casa para pastorear ne capim da f\u00e1brica e ao escutar o berro dele, julguei logo que ela o tivesse esquecido. Nem me lembrei que era domingo e nesse&nbsp;dia,&nbsp;a&nbsp;f\u00e1brica n\u00e3o funcionava, portanto, minha m\u00e3e n\u00e3o o teria levado.<\/p>\n\n\n\n<p>Rapidamente me dirigi para o lado do ruido e para surpresa minha n\u00e3o vi animal algum; mas escutei em outro local, nada; escutei em outro ponto, e aconteceu a mesma coisa. S\u00f3 escutava o berro e o animal mesmo n\u00e3o conseguia ach\u00e1-lo. Comecei a ficar medroso, espantado e acreditar que aquilo deveria ser uma brincadeira de mau gosto ou uma assombra\u00e7\u00e3o. A noite ia caindo e nada de encontrar o tal cabrito. O pior era que n\u00e3o conseguia compreender o caso, lembrar de que era domingo, que minha m\u00e3e nunca o levaria para pastar, mas o berro era t\u00e3o angustiante que me atraia, mesmo n\u00e3o querendo. O suor do medo ou do cansa\u00e7o me ocorria pela face, turvava meus olhos. Eu tirava o chap\u00e9u e com o len\u00e7o enxugava o suor e limpava o rosto e novamente de um lado para outro andava, corria, procurava o animal. O gemido do mesmo me atra\u00eda ou me arrastava para o eco. O lugar era solit\u00e1rio, longe das primeiras casas e mesmo que quisesse chamar por algu\u00e9m, ningu\u00e9m me atenderia. Meu pai e irm\u00e3os nessa hora j\u00e1 deviam estar em casa h\u00e1 muito tempo e deveriam estar preocupados mas ningu\u00e9m, nem mesmo um \u201canjo da guarda&#8221; me aparecia para me ajudar e naquele vai e vem acabei ficando desesperado e furioso e quando quiz atacar o vazio com minha&nbsp;espingarda, porque s\u00f3 a\u00ed \u00e9 que me lembrei de que estava armado, tive a impress\u00e3o de topar com um vultoso animal que n\u00e3o era cabrito, nem bode, nem touro, muito menos um B\u00fafalo, mas devia ter um pouco de tudo isso; seu aspecto era horr\u00edvel. Nessa altura dos acontecimentos eu n\u00e3o fui para o lado dele, mas tive a impress\u00e3o de que o bicho bufando e soltando fogo pelas narinas, veio por cima de mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Garanto para voc\u00eas que nunca fui medroso e jamais alma do outro mundo me espantaria, mas tremi que nem vara verde em dia muito ventoso. N\u00e3o sei como transpus o port\u00e3o e quando cheguei em casa, mais morto do que vivo, com as roupas sujas e rasgadas, sacola rebentada, meu pai e irm\u00e3os j\u00e1 tinham-se banhados e estavam folgadamente jantando, preocupados sim, com minha demora, mas nunca podiam imaginar que eu estivesse perdido um terreno por demais conhecido, com uma alma do outro mundo em forma bastante imaginativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Limeira outubro de 1975<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-comments\">\n\n\n\n\n\n\t<div id=\"respond\" class=\"comment-respond wp-block-post-comments-form\">\n\t\t<h3 id=\"reply-title\" class=\"comment-reply-title\">Leave a Reply <small><a rel=\"nofollow\" id=\"cancel-comment-reply-link\" href=\"\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/146#respond\" style=\"display:none;\">Cancel reply<\/a><\/small><\/h3><form action=\"https:\/\/picciblog.com.br\/wp-comments-post.php\" method=\"post\" id=\"commentform\" class=\"comment-form\"><p class=\"comment-notes\"><span id=\"email-notes\">Your email address will not be published.<\/span> <span class=\"required-field-message\">Required fields are marked <span class=\"required\">*<\/span><\/span><\/p><p class=\"comment-form-comment\"><label for=\"comment\">Comment <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <textarea id=\"comment\" name=\"comment\" cols=\"45\" rows=\"8\" maxlength=\"65525\" required=\"required\"><\/textarea><\/p><p class=\"comment-form-author\"><label for=\"author\">Name <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"author\" name=\"author\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"245\" autocomplete=\"name\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-email\"><label for=\"email\">Email <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"email\" name=\"email\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"100\" aria-describedby=\"email-notes\" autocomplete=\"email\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-url\"><label for=\"url\">Website<\/label> <input id=\"url\" name=\"url\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"200\" autocomplete=\"url\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-cookies-consent\"><input id=\"wp-comment-cookies-consent\" name=\"wp-comment-cookies-consent\" type=\"checkbox\" value=\"yes\" \/> <label for=\"wp-comment-cookies-consent\">Save my name, email, and website in this browser for the next time I comment.<\/label><\/p>\n<p class=\"form-submit\"><input name=\"submit\" type=\"submit\" id=\"submit\" class=\"submit\" value=\"Post Comment\" \/> <input type='hidden' name='comment_post_ID' value='146' id='comment_post_ID' \/>\n<input type='hidden' name='comment_parent' id='comment_parent' value='0' \/>\n<\/p><\/form>\t<\/div><!-- #respond -->\n\t<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O CABRITO FANTASMA Conto Francisco Piccirilo ____H\u00e1 pessoas que n\u00e3o acreditam em almas do outro mundo. 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