{"id":204,"date":"2024-02-16T09:50:02","date_gmt":"2024-02-16T12:50:02","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=204"},"modified":"2024-03-16T10:06:42","modified_gmt":"2024-03-16T13:06:42","slug":"os-milagres-de-sao-ferdinando","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/os-milagres-de-sao-ferdinando\/","title":{"rendered":"OS MILAGRES DE S\u00c3O FERDINANDO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>OS MLAGRES DE S\u00c3O FERDINANDO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conto Francisco Piccirilo<\/p>\n\n\n\n<p>Ferdinando residia numa pequena aldeia, ao p\u00e9 do morro do sol, vale do Ribeir\u00e3o Azul. Era um menino franzino, pernas longas, cabe\u00e7a mi\u00fada. Seu olhar inspirava compaix\u00e3o. Obediente, trabalhador, atencioso, servia, a troco de um caf\u00e9, almo\u00e7o, jantar ou qualquer coisa semelhante, contanto que n\u00e3o ficasse com seu est\u00f4mago vazio, qualquer pessoa que solicitasse seus pr\u00e9stimos, inclusive o Vig\u00e1rio de P\u00f4rto Seco, quando vinha, aos domingos e dias santos, celebrar a Santa Missa e outros of\u00edcios religiosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pais ele n\u00e3o tinha, pois quando nasceu, sua m\u00e3e morrera, v\u00edtima do parto; seu pai havia falecido bem antes dele nascer. Assim Ferdinando, vivia com sua vov\u00f3 materna, j\u00e1 bem velhinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Leoc\u00e1dia, muito devota de Santa Luzia, padroeira da pequena aldeia de Santa Luzia do Sap\u00e9, ficara vi\u00fava, ap\u00f3s muitos anos de casada sem ter filhos. Passados alguns anos casou-se com Leopoldo Serra, de quem teve uma filha, Maria de Lourdes, que com dezesseis anos de idade contra\u00edra matrim\u00f4nio com Vivaldo Guerra, de cujo casamento nasceu Ferdinando, num dia muito chuvoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivendo uma vida muito simples no povoado, Leoc\u00e1dia pouco se dava&nbsp;ao&nbsp;luxo&nbsp;das boas ou m\u00e1s not\u00edcias recebidas das pequenas cidades, distante une trinta quil\u00f4metros. Ficara vi\u00fava duas vezes, por fim perdera sua \u00fanica filha, bem como seu genro e ainda, com a responsabilidade de criar seu neto rec\u00e9m-nascido. Para ela, a crian\u00e7a cresceu mais por sorte, do que tratamento e cuidados, a n\u00e3o ser os poucos aux\u00edlios prestados por vizinhos, que procuravam atender algumas necessidades da velha d seu neto.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior lavoura do povoado era ovina, havendo tamb\u00e9m bastante caprinos e Leoc\u00e1dia, quando mo\u00e7a, esperta e bonita, muito lidou com a referida lavoura, mas ficando velha e sem recursos devido a ingratid\u00e3o da sorte, em nada mais podia contribuir para sua manuten\u00e7\u00e3o, da\u00ed sua inefici\u00eancia em atender aos reclamos vitais da crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Com seus dez anos de idade, ainda analfabeto, Ferdinando ia pelas casas dos vizinhos, pelos s\u00edtios e campinas, brincava no rio Azul, passava o dia fora e s\u00f3 voltava ao escurecer, para dormir. Sua av\u00f3 pouco reclamava, uma vez que ficar em casa n\u00e3o ficava mesmo e ela infelizmente n\u00e3o tinha for\u00e7as para det\u00ea-lo. Assim o menino vivia num lugar pobre&nbsp;e&nbsp;sem&nbsp;futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora n\u00e3o se interessasse por atividade alguma, quando Antonio, o ferreiro, seu Man\u00e9, da venda, Lu\u00eds, o barbeiro e outros profissionais perguntavam ao menino o que ele ia ser quando fosse homem, respondia rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Vou ser santo; S\u00e3o Ferdinando! vou fazer muitos milagres!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tendo o menor escr\u00fapulo perante o menino ing\u00eanuo, pois eram homens rudes e semianalfabetos, zombavam e riam gostosamente no rosto do garoto. Ferdinando, nenhuma aten\u00e7\u00e3o dava \u00e0s zombarias; as vezes ria tamb\u00e9m achando gra\u00e7a de sua pr\u00f3pria ingenuidade. Entretanto, ningu\u00e9m, entre os homens se preocupava em dar-lhe uma educa\u00e7\u00e3o, por mais simples que fosse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ferdinando, cada vez mais magro, mais franzino \u00e0 medida que crescia em tamanho e diminui na intelig\u00eancia, ia ficando mais bo\u00eamio; mais diferente. Emprego fixo ningu\u00e9m lhe proporcionava e ele n\u00e3o pretendia t\u00ea-lo. Sua vontade era ir de um lado a outro, brincar, nadar, subir morros e distrair-se \u00e0 vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Albertina, mulher de seu Man\u00e9, queria o menino no armaz\u00e9m, mas ele n\u00e3o ficava; Antonio, v\u00e1rias vezes fez o mesmo em sua oficina de ferreiro, mas o of\u00edcio n\u00e3o lhe interessava; assim outros homens tentaram,&nbsp;pois&nbsp;Ferdinando era atencioso e bonzinho, mas sua inclina\u00e7\u00e3o maior consistia contemplar os p\u00e1ssaros que voavam e os animais que pastoreavam livremente nos campos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma bela manh\u00e3, ap\u00f3s violenta tempestade ca\u00edda durante a tarde do dia anterior, cujo rio Azul se tornara grande, passeando pelas campinas frias, Ferdinando achou no ch\u00e3o a beira do rio a imagem de um santo. N\u00e3o sabia o nome, mas soube distingui-la. Algu\u00e9m deveria t\u00ea-la perdida ou jogada fora e as \u00e1guas trouxeram-na aquele campo. O menino ergueu-a com toda a venera\u00e7\u00e3o e guardou-a numa pequena gruta na montanha. Desde esse dia procurava sempre visit\u00e1-la com todo o respeito e devo\u00e7\u00e3o. Levava sempre uma flor colhida no campo; passava alguns momentos ali e depois regressava para o lugarejo, sem comentar com os moradores de sua aldeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem velhinha, doente e quase cega, Leoc\u00e1dia, desse dia em diante passou a sentir melhoras em seus olhos e recuperar as for\u00e7as. Estaria a imagem, pela intercess\u00e3o de seu neto, operando milagres? Os moradores notaram o fen\u00f4meno da velhinha que, embora beneficiada, n\u00e3o mostrava nenhum entusiasmo. Era at\u00e9 uma falta para com Deus e sua padroeira Santa Luzia. Quando os homens comentavam&nbsp;com&nbsp;Ferdinando sobre os progressos de sua av\u00f3, respondia com toda piedade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Meu santo est\u00e1 curando. Ela vai ficar boa outra vez!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Que santo! perguntaram os homens interessados em milagres.<\/p>\n\n\n\n<p>Ferdinando n\u00e3o conseguia revelar. Ao pronunciar as palavras, qualquer coisa embargavas-lhe a voz e ele saia do lugar correndo, como um envergonhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Daquele dia em diante os homens, quando reunidos no botequim do Joaquim, faziam os mais variados coment\u00e1rios sem chegarem a uma conclus\u00e3o. Discutiam o que poderia estar influindo na vida do garoto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;E \u2018verdade! comentava o alfaiate; agora me lembro; ele sempre dizia que ia ser santo!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Qual santo, qual diabo! respondia o Heins, pequeno criador de ovinos, e bastante incr\u00e9dulo. Que tem ele de importante para ser santo! um pobre diabo, que vive sem trabalho e \u00e0 cata de qualquer coisa aqui e ali, para n\u00e3o morrer de fome. Afinal, o fato de Leoc\u00e1dia estar melhor nada difere! Quem n\u00e3o morre de velho, acaba voltando-lhe a mocidade!<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres, mais cr\u00e9dulas e vaidosas, lavando roupas no rio, tamb\u00e9m&nbsp;faziam&nbsp;suas tagarelices. Entretanto, Ferdinando continuava sua vidinha de sempre, deixando o povoado mais intranquilo. Ora ajudava o negociante, ora o ferreiro; atendia chamados; auxiliava o vig\u00e1rio e tudo o que ganhava, quando lhe pagavam, levava \u00e0 sua boa vovozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Por muito tempo viveu Ferdinando naquela pacatez servindo homens, senhoras e quando acontecia de algu\u00e9m ficar com dor de cabe\u00e7a, dor no est\u00f4mago, mau jeito e outras enfermidades comuns, ele prometia interceder junto de seu santo pela melhoria do enfermo. Isso tornou-se t\u00e3o comum que nem mais ligavam pelas ofertas do pobre menino.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Teresa, ap\u00f3s ter lavado suas roupas no rio, estava estendendo-as no quintal. Nesse momento, sem saber por que, um touro furioso vindo da rua, rebentando carcas, atrav\u00e9s sou pelo quintal e saiu por outra parte do terreno fazendo estragos sem contas. A mulher, que n\u00e3o esperava por aquela funesta surpresa, deu um grande grito de desespero, ouvido a grande dist\u00e2ncia e caiu desmaiada. Seus vizinhos mais pr\u00f3ximos correram em aux\u00edlio e a l\u00e1 varam para o quarto. Estando gr\u00e1vida de alguns meses, o choque foi tremendo e o mal aumentava com os minutos que passavam. O m\u00e9dico mais pr\u00f3ximo estava bem longe&nbsp;e&nbsp;o&nbsp;lugar&nbsp;de pouco recursos. Teresa, decorrido dois dias, continuava com seu mal agravando. Ferdinando foi visit\u00e1-la, pois a senhora sempre foi muito boa para ele e ao v\u00ea-la debatendo-se na cama com muita febre exclamou.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Vou falar com meu santo agora mesmo. Ele vai faz\u00ea-la sarar; ela vai ficar boa outra vez.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres escutaram o menino pronunciar aquelas palavras, mas preocupadas com a doen\u00e7a da colega, que se agravava, nem prestaram aten\u00e7\u00e3o no garoto. Decidido retirou-se da casa e se dirigiu \u00e0 imagem guardada na montanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Passando pelo campo, Ferdinando apanhou uma flor silvestre, s\u00edmbolo de sua pureza, depositou nos p\u00e9s da imagem e suplicou suave- mente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Meu Santo querido! Dona Teresa est\u00e1 muito doente! Ela n\u00e3o pode morrer!&#8230; Dona Benta, dona Chiquinha, dona Lucinda est\u00e3o l\u00e1 ajudando, mas n\u00e3o podem faz\u00ea-la ficar boa!&#8230; A seguir fez mais algumas ora\u00e7\u00f5es e preces ao seu modo e voltou para a casa da enferma. Enquanto voltava, Teresa experimentava as primeiras melhoras. Ao chegar no quanto da paciente, ela apresentava boa disposi\u00e7\u00e3o. Benta, vendo o menino se aproximar exclamou desesperadamente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Menino fuma figa, onde se meteste?! n\u00e3o viu que a gente precisava de voc\u00ea aqui para alguma coisa?!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211;Eu fui pedir ao meu santo para ela sarar! n\u00e3o v\u00ea que ela est\u00e1 bem melhor!<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres olharam-se uma as outras e lembraram-se dos coment\u00e1rios havido antes sobre dona Leoc\u00e1dia e de outras pessoas. Benzeram-se ali mesmo diante do menino e continuaram seus trabalhos de ch\u00e1s e escalda-p\u00e9s na doente.<\/p>\n\n\n\n<p>Amanhecendo o terceiro dia, Teresa estava novamente boa, embora muito fraca. Os cochichos sobre o menino aumentaram ainda mais. Na venda, botequim, barbearia; apenas havia uma d\u00favida entre o pessoal. Milagres, que eles sabiam, eram curas instant\u00e2neas, enquanto a dona Leoc\u00e1dia, Teresa e outros processarem-se durante dias. Mas foi notado que a partir da declara\u00e7\u00e3o de Ferdinando, ambas se curaram. Milagres ou coincid\u00eancias!&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Passaram-se muitos meses. E ningu\u00e9m mais se lembraram dos milagres, nem t\u00e3o pouco do santo de Ferdinando. Mas o menino, al\u00e9m de prestar os favores normalmente as pessoas, continuava visitando a gruta e levando flores ao Santo e orando pela paz e felicidade do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Santa Luzia do Sop\u00e9&nbsp;continuava&nbsp;sua vida de aldeia. Nada inspirava de importante para que se tornasse uma vila e mais tarde uma cidade. Mas o progresso n\u00e3o para e muitas vezes, quando menos se espera, ele surge, bate \u00e0 porta do lugar. Assim chegou a vez da pequena aldeia, que certo dia viu um industrial se estabelecer nas redondezas das montanhas, onde Ferdinando guardava santamente sua imagem, para explorar cascalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazia muito dias que Ferdinando tinha-se adoentado e n\u00e3o pudera ir at\u00e9 as rochas; ningu\u00e9m comentara o aparecimento da empresa. Mas quando a companhia inaugurou suas atividades com a primeira explos\u00e3o, Ferdinando, ao ou vir o grande estouro, levantou-se de sua mis\u00e9ria cama e mesmo com febre alta correu, como que impulsionado, para salvar sua veneranda imagem. Leoc\u00e1dia, velha como era, n\u00e3o teve for\u00e7as para impedir o menino, que correndo como um louco foi em dire\u00e7\u00e3o a gruta. Ferdinando n\u00e3o ouvia nada, estava completamente descontrolado, mas uma coisa misteriosa o guiava na dire\u00e7\u00e3o da gruta. Ao chegar perto do lugar um guarda o embargou, pois o lugar era perigoso, al\u00e9m disso nova explos\u00e3o iria ocorrer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podendo passar por ali, Ferdinando procurou outros pontos e burlando vigia do pessoal conseguiu chegar at\u00e9&nbsp;a&nbsp;gruta&nbsp;de&nbsp;seu santo. Felizmente a imagem estava intacta, mas achou que o lugar n\u00e3o era melhor para guard\u00e1-la e quando ia saindo, nova explos\u00e3o ocorreu.<\/p>\n\n\n\n<p>Leoc\u00e1dia, n\u00e3o podendo segurar seu neto gritou por socorro. Homens e mulheres sa\u00edram em dire\u00e7\u00e3o da montanha e quando chegaram perto da sede da companhia exploradora foram advertidos e impedidos pelos guardas de n\u00e3o passarem al\u00e9m do per\u00edmetro permitido. Mas os protestos da massa chamaram a aten\u00e7\u00e3o do gerente, que ouvindo os reclamos viera inteirar-se do acontecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Viemos buscar o menino que est\u00e1 na gruta, ai na montanha! adiantou Benedito, o carpinteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Mas que menino! disse o gerente. Aqui \u00e9 proibido a presen\u00e7a de estranhos, principalmente de crian\u00e7as!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Proibido ou n\u00e3o, Ferdinando est\u00e1 a\u00ed, reclamou com mais insist\u00eancia Antonio. Ele costumava vir todos os dias aqui e n\u00e3o vamos embora sem o levarmos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Mas aqui \u00e9 perigoso! insistiu o homem, n\u00e3o posso deixar ningu\u00e9m passar. Afinal, perguntou ao guarda. Voc\u00ea deixou algu\u00e9m passar por aqui?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Um garoto esteve&nbsp;aqui,&nbsp;respondeu amedrontado o vigia, mas eu o mandei embora e ele desapareceu daqui.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Est\u00e3o vendo! insistia e gerente. Aqui ningu\u00e9m pode entrar!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;O menino est\u00e1 a\u00ed e n\u00e3o vamos embora enquanto n\u00e3o o levarmos! gritava o ferreiro, mais corpulento e corajoso. Como \u00e9 pessoal vamos invadir o terreno?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse instante a coisa come\u00e7ava a ferver. Diante disso o gerente suspendeu os trabalhos e permitiu que ambos procurassem o menino, mandando que seus auxiliares vistorias sem tamb\u00e9m o terreno. Ao se aproximarem da gruta o ferreiro e outros que estavam juntos viram Ferdinando com a imagem agarrada no peito, ainda com vida, estendido no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Ei pessoal!&#8230; gritou o homem, venham aqui! Ferdinando est\u00e1 aqui!&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Todos correram e ficaram impressionados. O gerente protestava contra a intromiss\u00e3o do pequeno; por isso havia placas e guar das devido os perigos. Man\u00e9, o que mais zombava do garoto, chorava, como crian\u00e7a. Teresa, reconhecida pelo milagre de sua cura, avan\u00e7ou entre as pessoas e tentou carreg\u00e1-lo em seu colo, mas seu marido n\u00e3o a deixou; ele mesmo tomou em seus bra\u00e7os. Ferdinando, agarrando mais forte a imagem, volveu seu olhar&nbsp;suplicante&nbsp;as pessoas ali presentes e ap\u00f3s um suspiro profundo, sem dizer palavra alguma, faleceu.&nbsp; Querendo salvar sua querida imagem, n\u00e3o conseguiu salvar sua pr\u00f3pria vida. A imagem, por\u00e9m, estava salva, protegida pelo seu esqu\u00e1lido corpinho, que apresentava graves ferimentos devidos as pedras caldas sobre seu corpo, quando houve a explos\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O quadro foi horr\u00edvel. Teresa, mais una vez reconhecida pela sa\u00fade recuperada, gra\u00e7as as preces do medianeiro, extasiada, proclamou em alta vos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Esse menino \u00e9 um santo! E todos ali presentes, dominados pela emo\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m gritaram.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Ele \u00e9 um Santo! ele \u00e9 Santo!&#8230;. O gerente, muito contrafeito, suspendeu os trabalhos e todos, povo e trabalhadores pegaram o menino com cuidado e em prociss\u00e3o, cantando e louvando a Deus, conduziram o morto para a capelinha. Passaram o resto do dia e a noite em ora\u00e7\u00f5es at\u00e9 o outro dia, quando pela manh\u00e3 sepultaram-no. Presente estava o Vig\u00e1rio, que viera da cidade celebrar os of\u00edcios religiosos. Ao descer os restos mortais no campo santo, n\u00e3o faltaram os discursos dos oradores; ambos procuraram enaltecer as virtudes heroicas do&nbsp;pequeno&nbsp;m\u00e1rtir.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Santa Luzia do Sop\u00e9 ganhou um Santo!&#8221; proclama\u00e7\u00e3o euf\u00f3rica do povo simples ao sa\u00edrem do cemit\u00e9rio. Somente junto ao monte de terras, com muitas flores e velas ao lado, ficara uma velhinha, j\u00e1 bastante martirizada em sua longa exist\u00eancia, chorando a morte tr\u00e1gica de seu netinho. Quando o bonito dia terminava com a descida do sol no horizonte formando aquele crep\u00fasculo vermelho azul, tamb\u00e9m Leoc\u00e1dia terminava sua longa vida neste mundo ingrato, acompanhando em esp\u00edrito, esp\u00edrito de seu \u00faltimo descendente, Ferdinando Guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Limeira, 25 de&nbsp;julho&nbsp;de&nbsp;1.970<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-comments\">\n\n\n\n\n\n\t<div id=\"respond\" class=\"comment-respond wp-block-post-comments-form\">\n\t\t<h3 id=\"reply-title\" class=\"comment-reply-title\">Leave a Reply <small><a rel=\"nofollow\" id=\"cancel-comment-reply-link\" href=\"\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/204#respond\" style=\"display:none;\">Cancel reply<\/a><\/small><\/h3><form action=\"https:\/\/picciblog.com.br\/wp-comments-post.php\" method=\"post\" id=\"commentform\" class=\"comment-form\"><p class=\"comment-notes\"><span id=\"email-notes\">Your email address will not be published.<\/span> <span class=\"required-field-message\">Required fields are marked <span class=\"required\">*<\/span><\/span><\/p><p class=\"comment-form-comment\"><label for=\"comment\">Comment <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <textarea id=\"comment\" name=\"comment\" cols=\"45\" rows=\"8\" maxlength=\"65525\" required=\"required\"><\/textarea><\/p><p class=\"comment-form-author\"><label for=\"author\">Name <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"author\" name=\"author\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"245\" autocomplete=\"name\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-email\"><label for=\"email\">Email <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"email\" name=\"email\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"100\" aria-describedby=\"email-notes\" autocomplete=\"email\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-url\"><label for=\"url\">Website<\/label> <input id=\"url\" name=\"url\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"200\" autocomplete=\"url\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-cookies-consent\"><input id=\"wp-comment-cookies-consent\" name=\"wp-comment-cookies-consent\" type=\"checkbox\" value=\"yes\" \/> <label for=\"wp-comment-cookies-consent\">Save my name, email, and website in this browser for the next time I comment.<\/label><\/p>\n<p class=\"form-submit\"><input name=\"submit\" type=\"submit\" id=\"submit\" class=\"submit\" value=\"Post Comment\" \/> <input type='hidden' name='comment_post_ID' value='204' id='comment_post_ID' \/>\n<input type='hidden' name='comment_parent' id='comment_parent' value='0' \/>\n<\/p><\/form>\t<\/div><!-- #respond -->\n\t<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS MLAGRES DE S\u00c3O FERDINANDO Conto Francisco Piccirilo Ferdinando residia numa pequena aldeia, ao p\u00e9 do morro do sol, vale do Ribeir\u00e3o Azul. 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