{"id":208,"date":"2024-02-16T09:51:08","date_gmt":"2024-02-16T12:51:08","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=208"},"modified":"2024-02-16T09:51:08","modified_gmt":"2024-02-16T12:51:08","slug":"os-pobres-carentes","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/os-pobres-carentes\/","title":{"rendered":"OS POBRES CARENTES"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>OS POBRES CARENTES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conto Francisco Piccirilo<\/p>\n\n\n\n<p>O Professor Silvio Ramos, natural de Saramandari, no interior do Estado, foi eleito Prefeito Municipal num pleito realmente memor\u00e1vel, pois tr\u00eas dos \/ quatro prefeitur\u00e1veis que tinham mais possibilidades de vencerem, foram derrotados. Foi uma surpresa a vit\u00f3ria do referido cidad\u00e3o, que seria o lanterna. Qual foi a causa?<\/p>\n\n\n\n<p>Silvio Ramos desde menino, quer na escola, no col\u00e9gio e mesmo no normal, sempre demonstrou um interesse humano pela popula\u00e7\u00e3o menos favorecida, mais conhecida pelo trauma de &#8220;marginalizada&#8221; e com isso, desinteressadamente foi fazendo indiretamente sua campanha pol\u00edticas, embora nunca tivesse participado de nada, nem mesmo durante sua fase escolar. Quando resolveu candidatar-se e, j\u00e1 pela primeira vez, a prefeito, sua plataforma continuou sendo a mesma, isto \u00e9, resolver o problema dos pobres, dos menos favorecidos, principalmente dos menores, das m\u00e3es solteiras, acabando enfim, com a mis\u00e9ria do povo. Aceitava a pobreza, como um meio natural, assim como a riqueza, entretanto, n\u00e3o concordava com a mis\u00e9ria, a qual campeava em sua cidade. Cristo disse &#8220;Pobres sempre tereis&#8221;; mas mis\u00e9ria, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Saramandari era uma cidade pequena com seus tr\u00eas mil habitantes e uns cinco mil na zona rural. Grande munic\u00edpio, sua maior fonte era a agricultura, mas infelizmente todos os munic\u00edpios agr\u00edcolas&nbsp;s\u00e3o&nbsp;os mais pobres na arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria. Os prefeitos sempre foram eleitos na base de um ajudar o outro, quando saiam, e sempre entre parentes mais pr\u00f3ximos, mas a\u00e7\u00e3o mesmo, nada. A cidade continuava anos ap\u00f3s anos pobre, devendo e sem arrecada\u00e7\u00e3o suficiente at\u00e9 para pagar os funcion\u00e1rios, os quais viviam com seus sal\u00e1rios atrasados e com perspectiva nada sonhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a cidade era pobre, seu parque agr\u00edcola tempor\u00e1rio era rico, por isso constantemente atraia gente &#8220;boias frias&#8221; para o campo, por\u00e9m, esse pessoal ficava na cidade ap\u00f3s a safra, aumentando anualmente a popula\u00e7\u00e3o. Os fazendeiros? esses ficavam em todos os lugares, menos em suas propriedades, as quais eram dirigidas por administradores, geralmente incapazes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvindo ano ap\u00f3s ano a mesma tese, uma vez que o Professor Silvio era muito popular entre os habitantes, quando se candidatou, mais por esportividade, o povo, anonimamente, o elegeu causando duas novidades; a derrota dos tr\u00eas poss\u00edveis vencedores e a vit\u00f3ria da poss\u00edvel lanterninha. A vit\u00f3ria pegou o professor de surpresa, pois ele mesmo n\u00e3o fez propaganda, m\u00e3o mobilizou cabos eleitorais, n\u00e3o pixou paredes, \u00e1rvores, postes. Sua campanha foi aquela de sempre:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Se eu fosse prefeito acabaria com a mis\u00e9ria do povo; faria casas populares, creches para as crian\u00e7as, ampararia as m\u00e3es solteiras, acabaria enfim, com crian\u00e7as&nbsp;marginalizadas!<\/p>\n\n\n\n<p>Os eleitores resolveram acreditar nas palavras do Professor e assim votaram nele. Afinal, se ele n\u00e3o cumprisse nada, n\u00e3o modificaria a vida na cidade, pois os outros prometiam tanto e a mis\u00e9ria continuava, como patrim\u00f4nio local. Cada votante tornou-se um cabo eleitoral voluntariamente. Un passava para o outro e assim sua elei\u00e7\u00e3o foi garantida.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Silvio Ramos viu-se guindado, um frio correu pela sua espinha. Percebeu que sua campanha foi v\u00e1lida para o povo sofredor, por\u00e9m, n\u00e3o estava preparado para tanto. Sua candidatura foi por esportividade, pois sabia que n\u00e3o seria eleito e, portanto, n\u00e3o programou nada, apenas falava, como todo o mundo fala, sem responsabilidade. O Coutinho n\u00e3o disse que cada brasileiro \u00e9 um t\u00e9cnico de futebol! Se a campanha foi v\u00e1lida, Silvio percebeu que tinha obriga\u00e7\u00e3o moral de cumprir com suas palavras. Se ele s\u00f3 falasse, mas n\u00e3o candidatasse, \u00e9 claro, n\u00e3o tinha nenhuma obriga\u00e7\u00e3o, mas agora a coisa era diferente. Os eleitores em particular e o povo em geral resolveram acreditar. Os outros candidatos sempre armavam assembleias; pagavam para cabos eleitorais; roj\u00f5es; alto falantes; banda de m\u00fasicas para alegrar o ambiente; gente pra bater palmas e gritar &#8220;j\u00e1 ganhou, j\u00e1 ganhou&#8221;; transporte de gente e outros artif\u00edcios que a gentarada gosta nas \u00e9pocas de elei\u00e7\u00f5es, mas que tudo n\u00e3o passava de uma palha\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, quando um candidato ganhava, j\u00e1 se considerava descumprido das promessas&nbsp;e&nbsp;tratava de se reembolsar com despesas havidas e com isso a cidade ficava cada vez mais pobre.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo prefeito n\u00e3o teve despesas com a campanha, logo, n\u00e3o tinha obriga\u00e7\u00e3o de enganar o povo e com isso entre o final da campanha e sua posse, procurou estudar ponto por ponto seu programa governamental. Afinal, a cidade n\u00e3o era grande, embora o munic\u00edpio o fosse, mas o munic\u00edpio tinha poucas propriedades e os grandes fazendeiros nem ligavam para a crise do mesmo. Durante esse per\u00edodo o Professor Silvio foi a capital do Estado, da Uniao; procurou inteirar-se das possibilidades junto \u00e0s Autoridades, Diretores Aut\u00e1rquicos, C\u00e2mara dos Deputados, Senado, enfim, fez um levantamento das possibilidades internas e externas. ~<\/p>\n\n\n\n<p>Passados alguns meses no governo e estando tudo sob seu controle, o Prefeito come\u00e7ou a dar execu\u00e7\u00e3o aos seus planos e para tanto convocou pessoalmente em seu gabinete o Vice-prefeito, o Presidente da C\u00e2mara de Vereadores, o Agente Fiscal do Estado, o Gerente do Banco, o Diretor do Col\u00e9gio, o Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Comercial, Presidente do Sindicato Rural, os dirigentes dos Partidos, do Vig\u00e1rio, enfim todas as \/ autoridades consideradas e de influ\u00eancias com as quais pudesse trocar opini\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Iniciando suas palavras, ap\u00f3s agradecer a presen\u00e7a de todos, foi expondo seus projetos com os seguintes argumentos:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Prezados Senhores:-&nbsp;O problema do menor abandonado, da fam\u00edlia carente, da m\u00e3e solteira e outras mazelas sociais, n\u00e3o \u00e9 somente em nossa comunidade, mas \u00e9 do Estado, do pa\u00eds e do mundo. Apelar aos governos Federal, estadual, n\u00e3o vai adiantar nada, embora eles nos mandem algumas verbas para esse fim. Contudo, para resolvemos o nosso problema gostaria de sugerir aos senhores e contar com a boa vontade de todos, para criarmos uma entidade oficial sob o nome de &#8220;FUNDA\u00c7\u00c3O SOCIAL E BEM-ESTAR DE SARAMANDARI&#8221;, composta por n\u00f3s mesmos. Cada membro contribuir\u00e1 com uma cota mensal. Atrav\u00e9s de Lei criarei um leve adicional nos tributos municipal, cujo dinheiro ser\u00e1 depositado em carteira de poupan\u00e7a em nome da Funda\u00e7\u00e3o. Com os dep\u00f3sitos mensais, tributos, verbas governamental e rendas da poupan\u00e7a, dentro de dois anos teremos um valioso saldo, valor esse que sempre aumentado \u00e0 medida que vamos depositando nossas contribui\u00e7\u00f5es. Por conta da Prefeitura nomearei uma Assistente Social e uma funcion\u00e1ria. Esta organizar\u00e1 um fich\u00e1rio dos menores e das fam\u00edlias carentes e a outra encarregara-se \u00e0 de visitar em toda a cidade os pobres e necessitados. O Gerente do Banco ser\u00e1 o diretor gerente do dinheiro, isto \u00e9, o tesoureiro e cada um de n\u00f3s seremos os fiscais na aplica\u00e7\u00e3o dos rendimentos e no comportamento dos beneficiados. Formaremos uma pequena Diretoria para legaliza\u00e7\u00e3o da Sociedade e teremos um grande Conselho Deliberativo formado por um representante de cada setor comunit\u00e1rio. A partir do terceiro&nbsp;ano&nbsp;comer\u00edamos distribuir proporcionalmente aos necessitados, as rendas obtidas. Essas rendas, como disse, ser\u00e3o aumentadas porque tamb\u00e9m o capital ser\u00e1 aumentado anualmente. S\u00f3 distribuiremos a renda, sem mexer no capital. Acredito eu que, se cada fam\u00edlia pobre, ou seja, uma vi\u00fava com filhos menores, uma m\u00e3e solteira, uma senhora que venha adotar a crian\u00e7a de outra m\u00e3e falecida receber um soldo necess\u00e1rio \u00e0 sua manuten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o precisar\u00e1 sair as ruas pedindo esmolas e muito menos deixar seus filhos crescerem marginalizados, aumentando assim os vadios, assaltantes e criminosos. Uma crian\u00e7a agora poder\u00e1 parecer um encargo pesado, mas ser\u00e1 mais barato no futuro. Ele vai ser um produtor e nunca um pistoleiro-consumidor. \u00c9 claro que cada caso ser\u00e1 julgado e apreciado pela Diretoria, conforme opini\u00e3o da Assistente Social.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa altura, o Gerente do Banco pediu a palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Senhor Prefeito: o seu plano de- monstra uma grandiosidade imensa e estou de pleno acordo ser o tesoureiro. No entanto quero preveni-lo de que; estive trabalhando em uma determinada cidade e o Prefeito, com um plano muito menor do que o seu, acabou-se arrependendo porque, a popula\u00e7\u00e3o carente aumentou extraordinariamente com a vinda de fam\u00edlias de outras regi\u00f5es miser\u00e1veis em nosso pa\u00eds. Como V. Excia. resolver\u00e1 esse problema?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Foi muito bom o seu&nbsp;aparte.&nbsp;Ali\u00e1s, todos os presentes fa\u00e7am tamb\u00e9m, afinal estamos aqui para um estudo social. Todavia, se hoje nossa popula\u00e7\u00e3o aumenta por causa do trabalho rural, tendo em vista que os fazendeiros n\u00e3o ficam com seus empregados extras, assinarei um decreto fechando a cidade, quero dizer, proibirei a entrada de novos migrantes durante meu mandato. Somente entrar\u00e1 pessoas que prov\u00e9m o motivo de sua vinda. Naturalmente o senhor Delegado de Pol\u00edcia tomar\u00e1 as devidas provid\u00eancias em todas as entradas da cidade e os fazendeiros s\u00f3 poder\u00e3o contratar pessoas residentes aqui ou responsabilizar-se-\u00e1 pela vinda de novos boias frias, devolvendo-os \u00e0 sua origem, t\u00e3o logo termine a safra.<\/p>\n\n\n\n<p>O Delegado compreendeu sua miss\u00e3o, fazendo sinal com a cabe\u00e7a. Desnecess\u00e1rio dizer que todos apoiaram a iniciativa do Prefeito e uma Diretoria foi nome ada para cuidar dos estatutos e outros atos burocr\u00e1ticos para legalizar a &#8220;Funda\u00e7\u00e3o Social e do Bem-estar de Saramandari&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem burocracia e agindo entre o cliente e a Funda\u00e7\u00e3o, quando o Professor Silvio estava terminando seu mandato, tamb\u00e9m a mis\u00e9ria estava reduzida. A partir do terceiro ano de mandato do Prefeito, como ele previra, um aspecto urbano e suburbano j\u00e1 se notava na cidade. Claro \u00e9 que o Professor n\u00e3o quiz candidatar-se a reelei\u00e7\u00e3o, aceitou apenas a Verean\u00e7a, prometendo voltar no outro quatri\u00eanio, se o povo assim o desejasse. Alegou o Professor, com muita raz\u00e3o, que preferia&nbsp;ver&nbsp;de&nbsp;fora analisar, como observador, o que fizera no per\u00edodo governamental. Em quatro anos n\u00e3o conseguira executar todo seu plano e nem poderia fazer, mas a cidade apresentava uma sens\u00edvel melhora. Os recebimentos tribut\u00e1rios estavam em dia o em dia estavam os funcion\u00e1rios e credores municipal.<\/p>\n\n\n\n<p>As chamadas obras de grande porte, quer disser, as infraestruturas para suportar uma grande cidade em crescimento, n\u00e3o fora feito, a n\u00e3o ser os estudos e projetos para um futuro a m\u00e9dio e longo prazo. O importante para livrar a cidade de uma mis\u00e9ria crescente, foi executado. Esse foi o plano do Professor.<\/p>\n\n\n\n<p>Silvio Ramos, Professor, natural de Saramandari, com trinta anos de idade, casado e pai de dois filhos, conseguiu cumprir em grande parte com o que ele sonhara e falara aos seus conterr\u00e2neos, desde os prim\u00f3rdios do grupo escolar. Os pobres foram beneficiados, como dissera Jesus aos enviados de Joao Batista e os ricos n\u00e3o foram sacrificados. Os planos de Silvio n\u00e3o eram de sistema comunista, os quais tiram do poderosos, para dar aos pobres, mas sim, foram tra\u00e7ados de baixo para cima. Nem o Governo Federal e muito menos o Estadual foram molestados. Tudo foi feito com sacrif\u00edcio do povo em benef\u00edcio do pr\u00f3prio povo. E \u00e9 natural que as verbas dos governos, bem como dos legisladores foram recebidas e aplicadas pela Funda\u00e7\u00e3o&nbsp;Social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Limeira agosto de 1989.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS POBRES CARENTES Conto Francisco Piccirilo O Professor Silvio Ramos, natural de Saramandari, no interior do Estado, foi eleito Prefeito Municipal num pleito realmente memor\u00e1vel, pois tr\u00eas dos \/ quatro prefeitur\u00e1veis que tinham mais possibilidades de vencerem, foram derrotados. Foi uma surpresa a vit\u00f3ria do referido cidad\u00e3o, que seria o lanterna. Qual foi a causa? 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