{"id":217,"date":"2024-03-06T22:36:10","date_gmt":"2024-03-07T01:36:10","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=217"},"modified":"2024-03-06T22:36:10","modified_gmt":"2024-03-07T01:36:10","slug":"papai-conta-me-uma-historia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/papai-conta-me-uma-historia\/","title":{"rendered":"Papai, conta-me uma hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>PAPAI, CONTA-ME UMA HIST\u00d3RIA.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conto Francisco Piccirilo<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Papai, conta uma hist\u00f3ria para<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Era uma vez&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Papai, porque todas as hist\u00f3rias come\u00e7am por &#8220;era uma vez?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Meu filho, todas elas t\u00eam esse come\u00e7o. A minha tamb\u00e9m teve.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentado numa poltrona, Jos\u00e9, p\u00f4s- se a meditar, enquanto acariciava no colo, seu filho de sete anos. Marcio, um garoto loiro, cujos cabelos formavam alguns cachinhos, era tratado carinhosamente por sua av\u00f3 paterno, dona Marta, uma senhora de cinquenta e cinco anos. Sua m\u00e3e, mal ele havia completado tr\u00eas meses de idade, abandonou o lar para nunca mais voltar. Quando isso aconteceu foi para Jos\u00e9, um golpe duro. Ficou sem mulher e ainda, com uma crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Tinha trinta anos quando me casei com uma jovem de apenas dezesseis&nbsp;primaveras.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivendo em lugar pequeno, Rosa, mais conhecida em nossa intimidade por Rosinha, desfrutava de uma grande amizade em minha casa. Eu vivia com mam\u00e3e, pois fiquei \u00f3rf\u00e3o com apenas oito anos. Mam\u00e3e criou-me com grande dificuldade. Lavou roupas, serviu em muitas resid\u00eancias prestando os mais variados servi\u00e7os para manter-se e criar-me. Vivendo aquela vida, temi casar-me at\u00e9 que um dia, Rosinha, filha de um casal muito pobre que residia algumas quadras distantes, despertou-minhas inclina\u00e7\u00f5es para o matrim\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Loira, alta, olhos azuis e corpo bem moldado, apresentava, al\u00e9m da beleza feminina, os caracter\u00edsticos de uma mulher formada, n\u00e3o obstante sua pouca idade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha a menor inten\u00e7\u00e3o para o casamento, repito, mas ouvindo sempre o convite da menina-mo\u00e7a, que mais falava por criancices, deixei-me levar pela uni\u00e3o e num esplendido s\u00e1bado de maio, entramos na pequena igreja da cidadezinha. Depois das cerim\u00f4nias religiosas, sob os vivas dos amigos e parentes, sa\u00edmos casados, para somente a morte nos separar.<\/p>\n\n\n\n<p>Oh, tr\u00e1gica aventura j\u00e1 nos primeiros dias a vida tornou-se bem diferente. La se foi \u00e1gua abaixo todas as esperan\u00e7as e felicidades. Percebi o abismo em que ca\u00edra. Agora, al\u00e9m de ser um homem bem mais velho,&nbsp;estava&nbsp;casado.<\/p>\n\n\n\n<p>Serviria de seu pai e foi a raz\u00e3o da atitude que tomei controlando-me. Rosinha, entretanto, n\u00e3o compreendera sua miss\u00e3o de esposa e futura m\u00e3e, passando a criar dificuldades a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora nunca mais houvesse aquela alegria de outrora, quando a Menina vinha ajudar minha velha m\u00e3e e provocar em mim a tenta\u00e7\u00e3o, uma certeza me alimentava; eu ia ser pai. Esse desejo aliado a esperan\u00e7a de que a jovem esposa melhorasse seu g\u00eanio, deram-me mais um pouco de coragem. Assim, aguardei ansiosamente o nascimento do fruto de uma uni\u00e3o infeliz. Os \u00faltimos dias passaram-se com tantas dificuldades.<\/p>\n\n\n\n<p>Mar\u00e7o do ano seguinte chegara e com ele minha familia aumentou. \u00c9ramos agora quatro pessoas: mam\u00e3e, Rosinha, eu e Marcio. Para mim foi uma imensa alegria, todavia, reconheci que era uma suposta felicidade, pois notei, minha esposa n\u00e3o apreciou aquele evento. Deixei-me levar, contudo, pelo contentamento de ter um filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Maldita ilus\u00e3o! A vinda do menino n\u00e3o melhorou o desajustamento familiar, pelo contr\u00e1rio, piorou. Ela olhava e tratava com indiferen\u00e7a aquele membro de suas estranhas. Mam\u00e3e sofria por ver-me sofrer; eu, duplamente, pois nunca quisera se casar, porque temia que algo de mal acontecesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuei minha miss\u00e3o ocultando aos olhos dos amigos, o drama infeliz de minha uni\u00e3o conjugal. Fora de casa cumpria minhas obriga\u00e7\u00f5es social, trabalhista e religiosa; dentro, era um homem sem disposi\u00e7\u00e3o, sem alegria, sem vida. Eles sabiam; liam em meus olhos; viam em minhas atitudes e, como poderia agir diferente? todos adivinhavam que mais cedo ou mais tarde as coisas seriam fatais.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha preocupa\u00e7\u00e3o aumentava a medi da que os dias se sucediam, uma vez que a vinda de Marcio em nada melhorou os sentimentos da esposa. Suas lamenta\u00e7\u00f5es transformaram-se em pragas, amea\u00e7as e blasf\u00eamias. Tr\u00eas meses depois encontrei no ber\u00e7o da crian\u00e7a um bilhetinho que, l\u00e1 conicamente, dizia o seguinte: &#8221; Jos\u00e9&#8230;Fique com seu filho! Eu ficarei com minha liberdade. N\u00e3o me procure. Adeus! Rosinha&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Sofri novo golpe. Ela n\u00e3o precisava fazer isso, mas foi melhor assim. Senti-me mais aliviado. Mam\u00e3e, que na ocasi\u00e3o estava com quarenta e oito anos e destreinada para cuidar de crian\u00e7as, sentiu novamente a pulsa\u00e7\u00e3o de uma verdadeira m\u00e3e. Ela tamb\u00e9m se casara nova e ficara vi\u00fava com filho de oito anos, mas nunca desmerecera sua responsabilidade de m\u00e3e, esposa e mulher. Procurou compensar para&nbsp;Marcio,&nbsp;o&nbsp;que sua verdadeira n\u00e3o fez.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante estes sete anos nunca me faltou o conforto dos amigos e vizinhos. Minha vida passou a pertencer ao trabalho, ora\u00e7\u00e3o e filho. No encerramento dos afazeres quotidiano, cuido de Marcio, enquanto mam\u00e3e termina os da casa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsta hist\u00f3ria ele ia contar ao menino, mas como o garoto perguntou-lhe porque todas elas come\u00e7am por &#8220;era uma vez&#8221;, contou-lhe outra bem&nbsp;diferente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Limeira setembro de 1964.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PAPAI, CONTA-ME UMA HIST\u00d3RIA. 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