{"id":227,"date":"2024-03-07T15:40:34","date_gmt":"2024-03-07T18:40:34","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=227"},"modified":"2024-03-07T15:40:35","modified_gmt":"2024-03-07T18:40:35","slug":"um-grito-na-madrugada","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/um-grito-na-madrugada\/","title":{"rendered":"UM GRITO NA MADRUGADA"},"content":{"rendered":"\n<p>UM GRITO NA MADRUGADA<\/p>\n\n\n\n<p>Conto Francisco Piccirilo<\/p>\n\n\n\n<p>Eram tr\u00eas horas da tarde de um s\u00e1bado, numa grande cidade do interior provincial. O rel\u00f3gio da Catedral havia batido as pancadas, marcando mais uma parte daquele dia frio. Bem perto da igreja, Carlos saia de seu apartamento, deixando assassinada sua amante, por julg\u00e1-la infiel.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se nada tivesse acontecido, acendeu um cigarro e passou a andar pelas ruas, avenidas, pra\u00e7as, e vai e vem, ia fazendo horas, talvez para esquecer o crime, que acabara de cometer.<\/p>\n\n\n\n<p>Mo\u00e7o bom, jovem ainda, com seus vinte e cinco anos, era contador chefe de um importante firma comercial, amigo de crian\u00e7as, rapazes, mo\u00e7as e velhos; todos tinham nele um \u00f3timo companheiro. No entanto, agora, com as m\u00e3os manchadas, ele, indiferente a todos, vagava pela cidade, indo at\u00e9 os bairros bem distantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de muito andar,&nbsp;olhou&nbsp;seu rel\u00f3gio e muito longe o martelo do velho carrilh\u00e3o bateu cinco pancadas. Carlos parecia ter passado dois s\u00e9culos, mas os ponteiros acusavam apenas duas horas a mais. O sol j\u00e1 estava bem declinado e o frio ficando mais intenso.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora fosse um rapaz muito alegre e dado com as pessoas, seu lar, entretanto era isolado. Seria ci\u00fames de sua companheira? nunca comentou. Naquele apartamento somente os dois viviam, nem mesmo com os vizinhos se comunicavam de a\u00ed ser misterioso o crime cometido. Ningu\u00e9m percebeu nada. La fora Carlos continuava vagando como filho prodigo. Fumava um cigarro atr\u00e1s do outro, como verdadeiro inveterado.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido ao rigor do frio desse dia fat\u00eddico, poucas pessoas estavam transitando pela cidade e n\u00e3o notavam o aspecto que nessa altura come\u00e7ava transmudar o criminoso. Depois de tanto andar para baixo e para cima, descer e subir ladeiras \u00edngremes, atravessar a cidade de um extremo a outro, sentiu desfalecerem suas for\u00e7as e deitou-se na cal\u00e7ada, indiferente aos poucos transeuntes, a sociedade e at\u00e9 ao pr\u00f3prio mundo. Os guardas noturnos tamb\u00e9m n\u00e3o ligaram para aquele indigente, um b\u00eabado qualquer; um normal jamais dormiria nessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Acostumado a boa vida, vivendo do melhor, morando em um apartamento, estava agora entregue ao relento, dormindo na rua sem um agasalho sequer. Por\u00e9m, ainda que muito mal, Carlos dormiu bastante. A noite continuava fria e silenciosa; somente o apito dos soldados noturnos aqui e acola quebravam o sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>O instrumento da Casa Divina, trabalhando normalmente, continuava marcando as horas e agora mais fortemente bateu doze pancadas fazendo Carlos acordar espantado. Embora tivesse ouvido o martelar do carrilh\u00e3o, olhou-o para o seu e arregalou os olhos. Meia noite! Havia envelhecido muitos anos nessas poucas horas. Seu aspecto era desolador. No momento passou um guarda, cumprimentou-o e seguiu seu caminho; na esquina apitou a fim de cumprir as formalidades do servi\u00e7o. N\u00e3o havia nada de novo; nem mesmo aquele estranho elemento constitui novidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o corpo dolorido, parecendo ter levado uma surra, Carlos andou alguns passos com muita dificuldade e nesse instante lembrou seriamente de sua companheira. Veio-lhe o remorso e come\u00e7ou a contorcer-se, e como um desmiolado pronunciava palavras desconexas. Pela cabe\u00e7a passavam-lhe celeremente uma s\u00e9rie de lembran\u00e7as dos bons tempos de namoro,&nbsp;aventuras&nbsp;e fuga at\u00e9 virem morar juntos. Ela era linda, esbelta e de cabelos longos. Tinha sido &#8221; miss alegria&#8221; de sua cidade natal; estava ainda na flor da idade com dezoito anos aproximados. Daquele momento em diante, as horas come\u00e7avam a voar como se fossem vento. O frio, ainda mais forte, pesava-lhe nas costas. O mau jeito da cama dura, nunca experimentado, aumentavam-lhe os sofrimentos. Foi andando pelas ruas sem rumo certo; o rel\u00f3gio bateu uma hora; dali h\u00e1 pouco duas horas; j\u00e1 era bem um domingo. Continuou andando de um lado para outro, balbuciando qualquer coisa que ningu\u00e9m ouvia, nem tinha vivalma para ouvir. Longe, longe, o soldado da noite fazendo sua ronda, ora apitava, ora andava e, quando encontrava seus colegas de farda, trocavam opini\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O rel\u00f3gio da velha Catedral continuava trabalhando. O ponteiro maior j\u00e1 tinha transposto a parte baixa e come\u00e7ava a subir. * Dentro de Carlos o sangue frio fervia, embora externamente o corpo se congelava. Atravessou a avenida D. Pedro I, sentou-se no banco do jardim, esfregou as m\u00e3os, tentou acender um cigarro, mas n\u00e3o conseguiu. Levantou-se, atravessou a pra\u00e7a, alcan\u00e7ou a rua da Independ\u00eancia e quando j\u00e1 estava bem distante come\u00e7ou a delirar&nbsp;fortemente.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo tremia. Um guarda escutou sua voz descontrolada, por\u00e9m, percept\u00edvel e procurou segui- lo. Nesse momento, dava-se para entender suas palavras entrecortadas e cheias de solu\u00e7os. Com passos curtos, envergando o corpo para frente, ia gritando:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Eu matei fui eu que assassinei Porque Senhor, por que fui fazer isso? Por qu\u00ea? Que direito me tinha sobre ela? Fui eu que insisti para morar comigo! Tirei a de sua casa onde estava t\u00e3o bem com seus pais! Prometi casar e n\u00e3o cumpri a palavra; conservei-a mais como uma prisioneira onde estava com minha loucura, meus ci\u00fames?!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante o frio bem rigoroso, agora come\u00e7ava a suar, e o suor corria-lhe pelo rosto, misturando-se com a poeira da cal\u00e7ada, aumentando seu miser\u00e1vel estado f\u00edsico, moral e espiritual. At\u00e9 a roupa tinha-se estragado. Indiferente ao que se passava, outro guarda ao cruzar a rua, cumprindo seu trabalho, apitou fortemente. O apito entrou-lhe pelos ouvidos, assustando-o. O velho carrilh\u00e3o deu as tr\u00eas marteladas. Carlos estremecendo de medo, de remorso e de frio, soltou um grito alucinante, que ecoou pela cidade. Desesperadamente gritava: &#8212;Fui eu que matei Sou&nbsp;eu&nbsp;o assassino! Prenda-me! Ela era inocente, era inocente&#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p>Chorando e contorcendo-se, rolou pesadamente pela sarjeta de um bairro distante.<\/p>\n\n\n\n<p>Os soldados, que estavam perto e escutaram seus gritos, correram apitando repetidamente, chamando outros colegas.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento exato das tr\u00eas horas, Carlos soltou esse grito, que ecoando pela madrugada, atravessando as ruas e avenidas, tentava checar aos ouvidos de Maria Lucia, como pedindo perd\u00e3o, mas ela, surda aos seus gritos, jazia inerte dentro do apartamento. O crime fora vingado pela natureza, algumas horas depois. Quando os noturnos chegaram para prestar-lhe socorro, o criminoso j\u00e1 estava gelado. Duas mortes consumaram-se dentro de doze horas apenas. O povo, ignorando aquele espet\u00e1culo, continuava dormindo, protegido pelos homens do silencio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UM GRITO NA MADRUGADA Conto Francisco Piccirilo Eram tr\u00eas horas da tarde de um s\u00e1bado, numa grande cidade do interior provincial. O rel\u00f3gio da Catedral havia batido as pancadas, marcando mais uma parte daquele dia frio. Bem perto da igreja, Carlos saia de seu apartamento, deixando assassinada sua amante, por julg\u00e1-la infiel. 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