{"id":244,"date":"2024-03-07T23:00:56","date_gmt":"2024-03-08T02:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=244"},"modified":"2024-03-07T23:00:56","modified_gmt":"2024-03-08T02:00:56","slug":"um-rosto-de-mulher","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/um-rosto-de-mulher\/","title":{"rendered":"UM ROSTO DE MULHER"},"content":{"rendered":"\n<p>UM ROSTO DE MULHER<\/p>\n\n\n\n<p>Conto Francisco Piccirilo<\/p>\n\n\n\n<p>Encontrei-me h\u00e1 dias com o Joaquim Marcelo, ap\u00f3s uma longa aus\u00eancia. Notei nele uma certa desfigura\u00e7\u00e3o. Para mim, que o conhe\u00e7o h\u00e1 muitos anos, estava realmente diferente. Depois de uma boa conversa percebi suas modifica\u00e7\u00f5es demonstradas pelos gestos e inquieta\u00e7\u00f5es. Curioso, resolvi interpel\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Joaquim, voc\u00ea est\u00e1 diferente! Houve algum problema em sua vida?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Pelo contr\u00e1rio, estou curado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Curado de qu\u00ea! ent\u00e3o esteve doente?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;N\u00e3o foi propriamente doen\u00e7a do corpo, mas da alma ou coisa parecida e isso me deixou um bom tempo transtornado. Mas feliz- mente estou bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve uma pausa, mas notei uma * rea\u00e7\u00e3o por parte de Joaquim e voltei a arriscar uma confiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Se voc\u00ea n\u00e3o quiser conter o que houve, n\u00e3o conte, mas se isso o tranquilizar, bem que gostaria de saber o que lhe aconteceu, principalmente porque n\u00e3o acredito em problemas da alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora um pouco titubeante, Marcelo vagarosamente, entrecortado&nbsp;de&nbsp;altera\u00e7\u00f5es f\u00edsicas que ora parecia rir, ora chorar, alterava a voz, em seguida diminu\u00eda, foi desenrolando um caso, que a mim parecia um conto, n\u00e3o fosse as modifica\u00e7\u00f5es emotivas demonstradas durante a narra\u00e7\u00e3o, bem como o conhecimento que tenho dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as manh\u00e3s ao ir de minha casa para o trabalho, costumava entrar na igreja para fazer minhas ora\u00e7\u00f5es matinais. Nada melhor para aguentar o turno di\u00e1rio, assistir missa, receber a Sagrada Comunh\u00e3o e sair aben\u00e7oado, enfim.<\/p>\n\n\n\n<p>A mim, isso era normal e na igreja entram diariamente um certo n\u00famero reduzido de pessoas, pois, nos dias de semana, o assistir missas constitui devo\u00e7\u00e3o al\u00e9m disso, o pessoal em geral est\u00e1 ocupado com o trabalho nas ind\u00fastrias, com\u00e9rcio, bancos e outras atividades. Interessante \u00e9 que, n\u00e3o obstante haver aquele n\u00famero comum de pessoas, sempre as mesmas caras; aquele grupo de senhoras, algumas bem idosas, outras maduras e uma ou outra mo\u00e7a, de prefer\u00eancia estudante, dia ou outro aparece uma determinada pessoa diferente, por\u00e9m, assim como aparece, desaparece. Felizmente a igreja \u00e9 um lugar sagrado, cuja entrada, como a sa\u00edda, n\u00e3o custa nada, bastante respeit\u00e1-la; as portas est\u00e3o sempre abertas a todas as pessoas crentes ou descrentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha presen\u00e7a na igreja constitu\u00eda uma devo\u00e7\u00e3o, al\u00e9m disso, ela est\u00e1 entre minha casa e o local de trabalho cujo hor\u00e1rio de um e do outro em nada me atrapalhava. Entretanto, certa manh\u00e3, estava ajoelhado e cabisbaixo fazendo normalmente minhas ora\u00e7\u00f5es; ao levantar minha cabe\u00e7a olhar para o altar, dei com os olhos no ROSTO DE UMA SENHORA JOVEM, que nesse momento ia se retirando do templo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse-lhe, al\u00e9m daquele grupo permanente, sempre aparece uma pessoa diferente, de prefer\u00eancia, estudante, mas aquele rosto me impressionou, n\u00e3o que fosse bonito de admirar ou feio de horrorizar, mas era diferente de outros rostos j\u00e1 acostumados por mim. Ela assim como entrar, sair e eu tamb\u00e9m me retirei, mas durante o dia, aquele rosto ficou gravado no meu subconsciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias de semana, como voc\u00ea deve saber, o sacerdote reza missas de prefer\u00eancia \u00e0 defuntos de s\u00e9timo dia, trig\u00e9simo, anivers\u00e1rio de morte; da\u00ed a raz\u00e3o de aparecer gente diferente: s\u00e3o os familiares, vizinhos e amigos e essas missas sacros motivos para reatarem rela\u00e7\u00f5es de amizades ou encontrar pessoas que n\u00e3o se viam h\u00e1 muito tempo. Ela faz um grande bem aos mortos e aos vivos, eis porque sempre h\u00e1 rostos diferentes. Em v\u00e9speras de exame escolar aparecem os estudantes que juntando aos seus estudos&nbsp;fazem ora\u00e7\u00f5es e promessas para passar de ano, ou vem agradecer a conclus\u00e3o, quem sabe?<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele rosto, entretanto, me chamou aten\u00e7\u00e3o; afinal, que tinha eu com ele? Nem sei quem era a pessoal, percebi em outra ocasi\u00e3o tratar-se de uma senhora casada; tinha alian\u00e7a na m\u00e3o esquerda, e da\u00ed! Ela frequentou a igreja durante alguns dias, devia ter feito uma novena, depois desaparecera. Mas, passados um bom tempo, apareceu, frequentou a igreja mais um per\u00edodo, outra novena talvez e novamente, sumiu. Todavia, comecei a sentir sua aus\u00eancia. Foi, como disse antes, vez ou outra vinha uma pessoa diferente que assim como aparecia, desaparecia, cumprida a promessa, novenas ou outro ato piedoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha presen\u00e7a na igreja era normal em fun\u00e7\u00e3o do trabalho, por isso estava sempre presente, mas e a senhora?<\/p>\n\n\n\n<p>Passados alguns dias de aus\u00eancia, ei-la novamente; continuei vendo-a. O rosto era o mesmo, nem feio de espantar, nem bonito de admirar, mas tinha qualquer coisa de diferente dos outros rostos e o pior, me fazia relembrar algumas coisas do passado. Mas acontece que nunca tive um passado que obrigasse a relembrar coisas a n\u00e3o ser da outra encarna\u00e7\u00e3o. Acontece que sou suficientemente maduro para n\u00e3o acreditar&nbsp;na&nbsp;reencarna\u00e7\u00e3o. N\u00f3s nascemos e morremos uma s\u00f3 vez, a n\u00e3o ser no fim do mundo. Por que ent\u00e3o aquele rosto for\u00e7ava-me a retroceder na vida?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela nem me cumprimentava; seu aspecto era de uma senhora normal; devia ter uns trinta e tr\u00eas anos, idade que tamb\u00e9m Cristo tinha, cujo rosto, enquanto atraia os amigos, repelia seus inimigos, n\u00e3o que Ele os tivesse, mas as pessoas invejosas, ego\u00edstas e revolucion\u00e1rias temiam chegar perto; mas e o rosto daquela mulher nem gorda, nem magra; nem alta e nem baixa, por que me provocava em explica\u00e7\u00e3o?!<\/p>\n\n\n\n<p>Estava pensando em desistir de ir \u00e0 igreja, mas refletia; se a igreja tem as portas abertas para todos; se a igreja \u00e9 um templo sagrado, por que desistir? e mais ainda, se n\u00e3o tenho nada com a estranha criatura e ela muito menos comigo, porque desistir de frequentar, assistir missas, comungar, sair aben\u00e7oado!<\/p>\n\n\n\n<p>Quando n\u00f3s, os fi\u00e9is retiramos, cada um toma seu caminho e pouco importa se o dia \u00e9 frio, quente, chuvoso ou ventoso; em nada altera a natureza, apenas n\u00f3s, cidad\u00e3os comuns \u00e9 que tomamos precau\u00e7\u00f5es pessoais, mas acontece que para mim n\u00e3o era o problema da natureza e sim o rosto daquela mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tranquilo. Isso veio me garantir que sua presen\u00e7a me perturbava ao ponto de n\u00e3o querer mais frequentar a igreja de Deus. Notei que aquilo era uma horr\u00edvel mortifica\u00e7\u00e3o, verdadeira tenta\u00e7\u00e3o semelhante a sofrida por Cristo no deserto, quando se preparava para enfrentar sua vida p\u00fablica. Renunciei aquela compara\u00e7\u00e3o; longe de mim tamanho sacrif\u00edcio. N\u00e3o havia nenhuma necessidade para sofrer tanto. Mas rezei, implorei, prometi para que Deus em sua infinita miseric\u00f3rdia me defendes- se daquele suplicio. Un mes se passou sem que a senhora voltasse, mas voltou e a partir da\u00ed comecei a observ\u00e1-la propositadamente e notei que seu rosto n\u00e3o mais me causava inquieta\u00e7\u00e3o, como antes. Ele passou a ser mais lindo, mais formoso, mais impressionante. Percebi que o mal estava em min mesmo e n\u00e3o no ROSTO DA JOVEM SENHORA, que continuou frequentando a igreja, fazendo seus atos religiosos sem me conhecer e sem conhec\u00ea-la. Senti- me curado de um poss\u00edvel mal espiritual, que vinha me alienando, sem que ela tivesse culpa alguma<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Limeira fevereiro&nbsp;de&nbsp;1976<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UM ROSTO DE MULHER Conto Francisco Piccirilo Encontrei-me h\u00e1 dias com o Joaquim Marcelo, ap\u00f3s uma longa aus\u00eancia. Notei nele uma certa desfigura\u00e7\u00e3o. Para mim, que o conhe\u00e7o h\u00e1 muitos anos, estava realmente diferente. Depois de uma boa conversa percebi suas modifica\u00e7\u00f5es demonstradas pelos gestos e inquieta\u00e7\u00f5es. Curioso, resolvi interpel\u00e1-lo. &#8212;Joaquim, voc\u00ea est\u00e1 diferente! 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