{"id":251,"date":"2024-03-07T23:09:11","date_gmt":"2024-03-08T02:09:11","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=251"},"modified":"2024-03-16T10:06:19","modified_gmt":"2024-03-16T13:06:19","slug":"odio-e-vinganca","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/odio-e-vinganca\/","title":{"rendered":"\u00d3DIO E VINGAN\u00c7A"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u00d3DIO E VINGAN\u00c7A<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conto Francisco Piccirilo<\/p>\n\n\n\n<p>-Menino duma figa!.., Se eu te pegar outra vez me roubando, acabo com tua vida!..<\/p>\n\n\n\n<p>Cenas com essas n\u00e3o era comum acontecer, mas vez ou outra acontecia, no \u00fanico armaz\u00e9m de secos e molhados; g\u00eaneros e roupas existentes em s\u00e3o Lu\u00eds . onde Manuel Vila\u00e7a, portugu\u00eas, de nascimento, mas radicado ali desde crian\u00e7a, conseguira, j\u00e1 mo\u00e7o, formar sua empresa.<\/p>\n\n\n\n<p>A pequena cidade era pobre de habitantes e seus moradores, pobres de dinheiro, esp\u00edrito, cultura, sociedade, religi\u00e3o. Alguns que dispunham de um pouco mais de dinheiro, moravam na cidade; outros em casebres; a maioria residia nas fazendas do munic\u00edpio. Ali, al\u00e9m de pobres de tudo, eram escravos dos patr\u00f5es. Esses residiam nas grandes cidades e deixavam suas propriedades administradas por capatazes, os quais recebiam ordens de seus patr\u00f5es, pelo correio. Prefeito; Delegado de Pol\u00edcia; Juiz e c\u00e3s demais autoridades, dependiam de Manuel Vila\u00e7a. Da\u00ed se conclu\u00eda que n\u00e3o adiantava ningu\u00e9m reclamar.<\/p>\n\n\n\n<p>Gra\u00e7as ao subterf\u00fagio de um quilo ter novecentas gramas e um metro, oitenta cent\u00edmetros, Manuel, que come\u00e7ara como aprendiz de caixeiro, tonara-se propriet\u00e1rio do neg\u00f3cio, onde tinha de tudo. Se fosse hoje, dir\u00edamos que aquilo era um supermercado, pois os fregueses comiam e vestiam-se doze meses e s\u00f3 pagavam uma vez por ano. Manuel passava tamb\u00e9m por um financiador. Todavia, sua conduta dentro e fora do comercio era o de um avarento, ladr\u00e3o, mandante, pol\u00edtico, enfim, dominador absoluto. Quando os fregueses iam pagar suas contas sempre \u00e0s encontravam mais altas do que julgavam. J\u00e1 havia na contabilidade do Manuel, juros e corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, al\u00e9m de certas compras fict\u00edcias. Quem provaria o contr\u00e1rio, um ano ap\u00f3s?<\/p>\n\n\n\n<p>O pior de Manuel, homem gordo, bigodudo e de estatura mediana, era sua neurastenia; inescrupuloso; violento; malcriado; ignor\u00e2ncia religiosa, embora bonzinho para com o vig\u00e1rio. Para correr atraz de um menino, tido por ladr\u00e3o, n\u00e3o custava nada. E quando isso acontecia, pai, m\u00e3e, avos e os demais parentes, mesmos que n\u00e3o tivessem, ouviriam os mais altos e baixos palavr\u00f5es. O pessoal comprava ali, mas tinham medo de contestar qualquer irregularidade por parte do negociante. Sua \u00fanica palavra merecia mais f\u00e9, do que todo o serm\u00e3o que o coitado do velho vig\u00e1rio fazia sobre a dolorosa paix\u00e3o, agonia e morte de Jesus Cristo, na sexta feira santa.<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Vila\u00e7a n\u00e3o estava s\u00f3. Sua mulher, esquel\u00e9tica, alta, com seus quarenta anos mais ou menos, parecendo ter setenta, encarregava-se de completar as desgra\u00e7as dos fregueses e habitantes sanluisenses. Qual eram os pecados daquele pobre povo, que nem as \u00e1guas bentas de Frei Anast\u00e1cio, espargidas pela pequena cidade, conseguiam melhorar? Talvez fosse a grande distancia entre S\u00e3o Luis e a Capital, com um correio deficiente; estradas ruins; aus\u00eancia de tel\u00e9grafo e estrada de ferro. As mercadorias vinham ao armaz\u00e9m em carro\u00e7\u00e3o puxado por burros ou bois.<\/p>\n\n\n\n<p>Escola, havia uma municipal, que funcionavam precariamente, assim mesmo ajudadas pelo negociante. Eletricidade n\u00e3o havia; a ilumina\u00e7\u00e3o era na base do querosene. Ainda bem que naquele tempo n\u00e3o havia o descontrole do petr\u00f3leo \u00e9 nosso, mas pelos \u00e1rabes. Diante de uma situa\u00e7\u00e3o pat\u00e9tica e calamitosa como era, \u00e9 claro que os pais procuravam fazer com que seus filhos menores nem passassem pela frente do armaz\u00e9m, que por ironia do povo, chamava-se \u201c Armaz\u00e9m do Bom Pastor\u201d, que de bom pastor n\u00e3o tinha nada, embora o negociante procurasse mant\u00ea-lo alinhado, limpo e bem estocado. Al\u00e9m de Manuel e sua esposa, havia um empregado auxiliar e um garoto, esp\u00e9cie de ofice-boy. Ambos seguiam religiosamente a cartilha patronal.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Lu\u00eds n\u00e3o possu\u00eda banco, nem caixa econ\u00f4mica, mas Manuel tinha um bom cofre de a\u00e7o onde guardava documentos, seu dinheiro e de alguns mais afortunados do lugar. Quando realizava suas compras, fazia a dinheiro e por isso trazia mercadorias com bons descontos, favorecendo ainda mais seu lucro anual.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que os meninos fossem rigorosamente ensinados e advertidos por seus pais, com rela\u00e7\u00e3o ao avarento e neurast\u00eanico Manuel e sua companheira sempre algum garoto endiabrado ou esperto dava uma de gaiato e aproveitando falha do pessoal, filava qualquer coisa do armaz\u00e9m. Coisa de crian\u00e7a, mas se algu\u00e9m visse, a fam\u00edlia pagaria em dobro o valor roubado, pois o negociante debitava \u00e0 conta do fregu\u00eas, mas sua raiva e \u00f3dio era ver o ladr\u00e3o roubando na sua cara e fugir, e foi da\u00ed que certa vez surpreendeu o \u201cBaianinho\u201d, moleque de doze anos, filho \u00fanico do casal Maria e Bento Bueno, filando um peda\u00e7o de carne seca.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele dia Manuel Levantara-se mais azedo do costume; sua mulher e os empregados estranharam seu modo, suas atitudes; o falar impunha maior respeito. Mas o dia ia passando e ali pelas doze horas, quando o sol estava bem a pique, Baianinho, com ordem e recomenda\u00e7\u00f5es de sua m\u00e3e foi fazer compras, mas o garoto ainda estava sem almo\u00e7o. Seus pais, coitados, eram realmente pobres, como miser\u00e1veis eram os colonos das fazendas ao comprar as migalhas encomendadas por sua m\u00e3e e que n\u00e3o eram nada iguais aquilo que via no balc\u00e3o e prateleiras, aproveitando a aus\u00eancia do pessoal e a ida do balconista ao fundo, surrupiou uma fatia de jab\u00e1 e quando ia saindo topou com Manuel que entrava pela porta da rua. Manuel viu o menino tirar e foi o suficiente. At\u00e9 os diabos no inferno foram respons\u00e1veis pelo roubo da carne.<\/p>\n\n\n\n<p>Agarrada e levado ao fundo do armaz\u00e9m, o garoto apanhou de todos e de tudo, mal grado seus urros e esperneamento para escapar. Quando escapou, motivado pelo relacionamento dos opressores, ele caminhou cambaleando at\u00e9 cair morto em frente do casebre de seus pais.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria, sua m\u00e3e, aguardava ansiosa pela demora do menino e quando saiu para ver se o mesmo vinha retornando, topou com um monte de gente todo esfarrapado e ensang\u00fcentado na porta de seu lar. Gritou horrivelmente, mas os vizinhos moravam mais retirados. A mulher, embora reconhecendo as causas desse hediondo crime, saiu como uma louca, nem coragem teve de recolher os trastes de seu filho ali adiante. Foi gritando desesperadamente a chamar pelo seu marido, at\u00e9 o lugar onde Bento trabalhava. Pelo caminho outras pessoas foram vendo e ouvindo sem atinar pelo acontecimento, apenas julgando-a demente, embora a conhecendo que n\u00e3o era. Bento, vendo sua mulher em gritos e desesperada, largou o servi\u00e7o e seus companheiros tamb\u00e9m vieram sem rumo , mas o instinto orientava todos. Maria n\u00e3o falava, gesticulava apenas e assim Bento e seus colegas vieram at\u00e9 a cidade e foram ver com seus pr\u00f3prios olhos mais um fen\u00f4meno diferente, acontecido na pacata S\u00e3o Luis. Todos compreenderam a longitude do acontecimento. Bento, ap\u00f3s recolher o defunto e ajeita-lo na mesa, muniu-se de foice e machado e seus colegas com outras ferramentas o acompanharam e foram todos at\u00e9 o armaz\u00e9m, mas n\u00e3o puderam fazer nada. Manuel dera parte a Policia de um roubo que n\u00e3o houve, mas a autoridade estava ao seu lado; respeitava o que: praguejar o negociante e enterrar o cad\u00e1ver de Baianinho. Tudo voltou ao normal porque at\u00e9 para se fugir de S\u00e3o Luis n\u00e3o era f\u00e1cil. Bento tinha que trabalhar, porem mais pobre; ficou sem o filho \u00fanico e a mulher desmiolada. Entretanto, o acontecido serviu, mais uma vez, de li\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias pobres e at\u00e9 os meninos ficaram com muito medo pelo resto da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora pacata, havia sempre alguma novidade em S\u00e3o Luis e chegou o dia da grande festa, dia em que os fazendeiros, ap\u00f3s a safra do ano e recebido o dinheiro, acertavam as contas com Manuel e seus empregados. Os fregueses faziam o mesmo e voltavam a ficar sem dinheiro at\u00e9 o pr\u00f3ximo ano. Isso acontecia todos os anos num circulo vicioso. Quem estava com muito dinheiro era o cofre da venda e Manuel j\u00e1 se preparava para ir a Capital fazer compras. Feita as rela\u00e7\u00f5es de compras; calculado o quanto ir gastar, Manuel deitou-se, para no outro dia j\u00e1 cedinho levantar-se e seguir viagem. Ao levantar-se perdendo hora, percebeu que seu armaz\u00e9m ardia em fogo. Inc\u00eandio proposital ou n\u00e3o , ele n\u00e3o esperou mais nada. Gritou, acordou todo mundo, mas somente a mulher foi ajud\u00e1-lo. Ningu\u00e9m se arriscava querer pagar fogo com baldes e latas vaziam de querosene. E n\u00e3o havia \u00e1gua f\u00e1cil, pois era na base de po\u00e7o puxado a manivela. Manuel e sua mulher, cada vez mais aflitos, lembraram do dinheiro guardado no cofre. Tudo ia ser devorado pelas chamas traidoras.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Catarina!.. gritou o homem. \u2013 Traga-me a chave do cofre! &#8211; E o fogo, Manuel! Voc\u00ea esta louco!..<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Louco vou ficar se perder o dinheiro!<\/p>\n\n\n\n<p>Catarina foi apanhar a chave, Manuel, por\u00e9m, n\u00e3o teve paci\u00eancia. Muniu-se de um machado e como um le\u00e3o espavorecido numa jaula, vibrava o machado no cofre, na \u00e2nsia de abri-lo e quando Catarina ia entrando no aposento, uma vigota de peroba em chamas caiu sobre sua cabe\u00e7a soterrando-a Manuel viu e quis socorr\u00ea-la, mas o dinheiro dentro do m\u00f3vel falava mais alto. Era preciso salva-lo e ao se aproximar da defunta carbonizada para apanhar a chave, um punhado de vigotas, caibros, ripas e telhas carregadas de labaredas desabaram sobre sua cabe\u00e7a, sufocando-o tamb\u00e9m. Armaz\u00e9m; cofre; dinheiro; mercadorias; roupas e g\u00eaneros al\u00e9m de Catarina e Manuel viraram cinza e todos ficaram sepultados pelo violento inc\u00eandio, nunca havia na pequena e pacifica S\u00e3o Luis. Seus moradores limitavam a crer que o castigo demorou, mas chegou. Ningu\u00e9m era bombeiro para apagar as chamas e Corpo de Bombeiros n\u00e3o havia. E agora, comentavam os fregueses: &#8211; Onde vamos comprar? Manuel era carrasco; ladr\u00e3o; unha de fome; avarento; agiota; dono de S\u00e3o Luis; mandante das autoridades e por fim, assassino, mas mantinha um armaz\u00e9m que matava a fome e vestia os nus. E agora?<\/p>\n\n\n\n<p>O agora ser\u00e1 outra Historia!!!<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-comments\">\n\n\n\n\n\n\t<div id=\"respond\" class=\"comment-respond wp-block-post-comments-form\">\n\t\t<h3 id=\"reply-title\" class=\"comment-reply-title\">Leave a Reply <small><a rel=\"nofollow\" id=\"cancel-comment-reply-link\" href=\"\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/251#respond\" style=\"display:none;\">Cancel reply<\/a><\/small><\/h3><form action=\"https:\/\/picciblog.com.br\/wp-comments-post.php\" method=\"post\" id=\"commentform\" class=\"comment-form\"><p class=\"comment-notes\"><span id=\"email-notes\">Your email address will not be published.<\/span> <span class=\"required-field-message\">Required fields are marked <span class=\"required\">*<\/span><\/span><\/p><p class=\"comment-form-comment\"><label for=\"comment\">Comment <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <textarea id=\"comment\" name=\"comment\" cols=\"45\" rows=\"8\" maxlength=\"65525\" required=\"required\"><\/textarea><\/p><p class=\"comment-form-author\"><label for=\"author\">Name <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"author\" name=\"author\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"245\" autocomplete=\"name\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-email\"><label for=\"email\">Email <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"email\" name=\"email\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"100\" aria-describedby=\"email-notes\" autocomplete=\"email\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-url\"><label for=\"url\">Website<\/label> <input id=\"url\" name=\"url\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"200\" autocomplete=\"url\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-cookies-consent\"><input id=\"wp-comment-cookies-consent\" name=\"wp-comment-cookies-consent\" type=\"checkbox\" value=\"yes\" \/> <label for=\"wp-comment-cookies-consent\">Save my name, email, and website in this browser for the next time I comment.<\/label><\/p>\n<p class=\"form-submit\"><input name=\"submit\" type=\"submit\" id=\"submit\" class=\"submit\" value=\"Post Comment\" \/> <input type='hidden' name='comment_post_ID' value='251' id='comment_post_ID' \/>\n<input type='hidden' name='comment_parent' id='comment_parent' value='0' \/>\n<\/p><\/form>\t<\/div><!-- #respond -->\n\t<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3DIO E VINGAN\u00c7A Conto Francisco Piccirilo -Menino duma figa!.., Se eu te pegar outra vez me roubando, acabo com tua vida!.. 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