{"id":263,"date":"2024-03-11T23:10:49","date_gmt":"2024-03-12T02:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/picciblog.com.br\/?page_id=263"},"modified":"2024-03-16T10:05:06","modified_gmt":"2024-03-16T13:05:06","slug":"o-pequeno-fazendeiro","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/picciblog.com.br\/index.php\/o-pequeno-fazendeiro\/","title":{"rendered":"O PEQUENO FAZENDEIRO"},"content":{"rendered":"\n<p>O PEQUENO FAZENDEIRO<\/p>\n\n\n\n<p>Francisco Piccirillo<\/p>\n\n\n\n<p>Pequeno sitiante na Lagoa Nova, Jurandir, homem simples, com seus sessenta anos mais ou menos, cabelos grisalhos, barba feita, estatura normal, foi a S\u00e3o Paulo fazer algumas compras para sua propriedade rural. Levou, como companheira de viagem sua esposa, pois ela nunca tinha ido a essa importante cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Fizeram algumas andan\u00e7as de taxi, \u00f4nibus, metro e mesmo a p\u00e9. Na Mooca, Jurandir encontrou uma casa comercial e ali resolveu fazer suas compras.<br>Enquanto negociava entrou no armaz\u00e9m e aproximou-se um senhor de estatura baixa, meio gordo, muito bem trajado, barba cerrada, devia ser da Capital e olhando Jurandir fazer seus neg\u00f3cios com o gerente, ficou entusiasmado e ansioso. A mulher de Jurandir vagava pela loja apreciando as mercadorias da casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Terminado os neg\u00f3cios, Jurandir pagou a vista o resultado de sua compra e quando ia saindo topou com Otavio que, pedindo licen\u00e7a perguntou-lhe.<br>&#8212;&#8211; Pelo que o senhor comprou, deve ser um agricultor.<br>&#8212;&#8211;\u00c9 realmente sou. Com quem estou falando?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8211;Otavio da Cruz, seu criado. Tenho uma fazenda no interior e gostaria de trocar algumas palavras sobre o g\u00eanero, se n\u00e3o atrapalho seus neg\u00f3cios.<br>N\u00e3o me atrapalha em nada pois j\u00e1 fiz o que devia fazer, estava apenas me retirando. Com rela\u00e7\u00e3o ao que o senhor deseja tenho at\u00e9 imenso prazer se estiver ao meu alcance. Chamo- me Jurandir da Silva e quando nasci, meus pais j\u00e1 eram agricultores. Onde o colega tem sua fazenda?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;-Em Limeira. Me disseram que as terras s\u00e3o muito boas.<br>&#8212;-Boas at\u00e9 demais inclusive o povo. Quantos alqueires tem sua fazenda? Talvez a gente at\u00e9 conhe\u00e7a ela, porque sou tamb\u00e9m de Limeira e ali todo o mundo se conhecem. &#8212;-Tenho Nove alqueires, mas no momento n\u00e3o me lembro muito bem o nome do bairro onde fica.<br>&#8212;-Tem Nove alqueires e diz ter uma fazenda? Jurandir ficou branco, pigarreou, deu uns passos meio tonteado, co\u00e7ou a cabe\u00e7a, afinal conseguiu equilibrar-se.<br>&#8212;-O Senhor est\u00e1 sentindo alguma coisa? Posso chamar um m\u00e9dico, ou lev\u00e1-lo a um Prontos-socorros!<br>&#8212;-N\u00e3o \u00e9 nada, as vezes me d\u00e1 uma tonturinha, mas \u00e9 passageira. Quantos alqueires o colega me disse?<br>&#8212;-Nove Alqueires e o senhor? Pigarreando outra vez Jurandir respondeu.<br>&#8212;-Tenho Um sitiozinho de onze alqueires e minha propriedade fica no bairro Lagoa Nova.<\/p>\n\n\n\n<p>E com isso ia retirando-se, mas Ot\u00e1vio interrompeu sua sa\u00edda.<br>&#8212;-Senhor Jurandir, por favor, se o senhor tem onze alqueires e diz ter um sitiozinho, ent\u00e3o estou fazendo um papel de bobo!<br>O agricultor limeirense percebeu at\u00e9 onde o peixe mordera a isca, mas, calmamente, declarou.<br>&#8212;-N\u00e3o Diga isso, caro colega, tenho jeito de expressar as coisas ao meu modo, mas cada um diz o que quer dizer, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma lei em contr\u00e1rio. O colega j\u00e1 cadastrou seu im\u00f3vel?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;-Ainda N\u00e3o, ali\u00e1s nem sei o que \u00e9 isso, tamb\u00e9m n\u00e3o conhe\u00e7o minha propriedade. Comprei-a por interm\u00e9dio de um corretor, indicado por um amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jurandir voltou a pigarrear, sua mulher at\u00e9 estranhou seu modo e disse ao marido. Vamos embora, Jurandir. A tarde deve estar fazendo-lhe mal.<br>Ot\u00e1vio voltou a perguntar-lhe.<br>&#8212;O Senhor est\u00e1 sentindo alguma coisa? Posso chamar um m\u00e9dico!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;\u00c9 como falei; o clima aqui em S\u00e3o Paulo me provoca uma esp\u00e9cie de alergia. Mas como ia dizendo; comprar uma fazenda sem conhec\u00ea-la \u00e9 um pouco arriscado, mesmo conhecendo, v\u00ea-la de perto, saber o que existe, se h\u00e1 rio, montes, barranco, garra-diabo etc., a gente n\u00e3o est\u00e1 escapo de comprar \u201cgato por lebre\u201d!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;N\u00e3o se espante senhor Jurandir. \u00c9 claro que ainda n\u00e3o paguei toda compra, mas j\u00e1 dei uma boa parcela e pretendo morar no interior e lidar com a lavoura.<br>&#8212;O colega n\u00e3o vai arrepender-se. Morar no interior e lidar com lavoura \u00e9 a melhor coisa que a gente pode fazer pela sa\u00fade. Eu, como j\u00e1 disse, nasci num s\u00edtio, n\u00e3o conhe\u00e7o outra profiss\u00e3o; rico, n\u00e3o fiquei, mas criei meus filhos e continuo tocando o barco. Afinal, o colega n\u00e3o tem nenhuma ideia do que tem na propriedade? Hoje a melhor e a maior lavoura em Limeira \u00e9 a laranja e com a instala\u00e7\u00e3o de f\u00e1brica de suco concentrado, a laranja vai indo de &#8220;vento em proa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Se n\u00e3o me engano tem laranja nas minhas terras, mas j\u00e1 s\u00e3o um pouca idosa, mas segundo o vendedor, d\u00e1 para negociar alguma coisa.<br>&#8212;\u00d3timo, caro colega, \u00f3timo. Realmente a laranja \u00e9 uma boa lavoura. Limeira j\u00e1 foi muito cafeeira, mas com a queda do caf\u00e9 os agricultores partiram pela citricultura e al\u00e9m disso tem muitos viveiristas que capricham no trabalho de produzir excelentes mudas. Mas, como ia dizendo, se o colega ainda n\u00e3o cadastrou seu im\u00f3vel, quando cadastr\u00e1-lo n\u00e3o precisa ter acanhamento em dizer que tem uma fazenda de nove alqueires. Quando o Governo instituiu a &#8220;Semana da Terra&#8221; em 1966, foi adotado uma folha de papel que mais parecia com o &#8220;Estad\u00e3o&#8221;, ali tem no come\u00e7o o nome do propriet\u00e1rio depois o nome da propriedade e assim sucessivamente. Por isso o colega pode dar o nome da propriedade como Fazenda Santa Maria qualquer outro nome. \u00c9 claro que os agricultores l\u00e1 em Limeira consideram uma fazenda com mais de cem alqueires. Naquela \u00e9poca o Governo criou o IBRA-Instituto Brasileiro de Reforma Agr\u00e1ria, com a finalidade de se saber quantas propriedades havia no Brasil. Ali tem toda esp\u00e9cie de perguntas e para ter-se uma ideia ou vis\u00e3o, o funcion\u00e1rio pergunta a um dono de meio alqueire, como ele transporta sua produ\u00e7\u00e3o. Ora, em meio alqueire n\u00e3o se produz nada para vender, isto \u00e9, sua produ\u00e7\u00e3o pode ser hortifrutigrangeira, mesmo assim em pequena quantidade. Geralmente o trabalhador mora nela e trabalha fora, mas o problema do cadastro \u00e9 para qualquer propriedade desse imenso Brasil onde h\u00e1 terras em que correm rios, estradas de ferro, de rodagem dentro dela e assim por diante. Por isso o colega n\u00e3o precisa ficar assustado ou ofendido.Voltandoaquest\u00e3odoIBRAhojeelechama-seINCRA,masd\u00e1tudonamesma. Atrav\u00e9s desse \u00f3rg\u00e3o o Governo cobra o chamado Imposto da Terra. Nessa \u00e9poca a vontade das Autoridades era reduzir o n\u00famero de minif\u00fandios, mas a coisa inverteu-se, hoje o pr\u00f3prio INCRA est\u00e1 estimulando o aumento do minif\u00fandio, isto \u00e9, de pequenas propriedades para resolve a situa\u00e7\u00e3o dos &#8220;sem terras&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ot\u00e1vio alegrava-se, mordia os bei\u00e7os, enxugava seu suor, mas continuava ouvindo com muito interesse as palavras de Jurandir.<br>&#8212; Caro amigo, nem sei como agradecer suas informa\u00e7\u00f5es e atrasar sua volta. Sua senhora deve at\u00e9 estar zangada comigo, mas, como ia dizendo, estou apo- sentado aqui em S\u00e3o Paulo, da\u00ed comprar essas terras, esse s\u00edtio ou ch\u00e1cara, sei l\u00e1 com dizem os interioranos e mudar para l\u00e1. E \u2018claro que n\u00e3o entendo nada de agricultura, mas s\u00f3 o fato de ter um s\u00edtio, construir uma bela casa com piscina e receber meus familiares e amigos, j\u00e1 ser\u00e1 um grande conforto. O senhor n\u00e3o acha? J\u00e1 est\u00e1 aposentado?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Infelizmente ainda n\u00e3o. A aposentadoria do trabalhador rural \u00e9 de sessenta e cinco anos, mas quanto ao seu desejo, caro colega, nem precisas terras serem boas. H\u00e1 muitas glebas assim, mas voltando atr\u00e1s, onde \u00e9 mesmo que fica sua fazenda?<br>&#8212;O senhor me disse que seu s\u00edtio fica na Lagoa Nova e agora me lembro que meu terreno fica nesse bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Ot\u00e1vio, d\u00ea-me um abra\u00e7o, al\u00e9m de sermos colegas, acredito que n\u00f3s somos tamb\u00e9m vizinhos, porque ao lado do meu s\u00edtio foi vendida uma ch\u00e1cara de nove alqueires a um comprador de S\u00e3o Paulo, ent\u00e3o tudo leva a crer que o caro colega \u00e9 o comprador. E abra\u00e7ando-se muito alegres e numa feliz cordialidade, despediram-se e Jurandir ainda terminou numa goza\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;Quando for a Limeira apare\u00e7a l\u00e1 no meu sitiooozinho!<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-comments\">\n\n\n\n\n\n\t<div id=\"respond\" class=\"comment-respond wp-block-post-comments-form\">\n\t\t<h3 id=\"reply-title\" class=\"comment-reply-title\">Leave a Reply <small><a rel=\"nofollow\" id=\"cancel-comment-reply-link\" href=\"\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/263#respond\" style=\"display:none;\">Cancel reply<\/a><\/small><\/h3><form action=\"https:\/\/picciblog.com.br\/wp-comments-post.php\" method=\"post\" id=\"commentform\" class=\"comment-form\"><p class=\"comment-notes\"><span id=\"email-notes\">Your email address will not be published.<\/span> <span class=\"required-field-message\">Required fields are marked <span class=\"required\">*<\/span><\/span><\/p><p class=\"comment-form-comment\"><label for=\"comment\">Comment <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <textarea id=\"comment\" name=\"comment\" cols=\"45\" rows=\"8\" maxlength=\"65525\" required=\"required\"><\/textarea><\/p><p class=\"comment-form-author\"><label for=\"author\">Name <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"author\" name=\"author\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"245\" autocomplete=\"name\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-email\"><label for=\"email\">Email <span class=\"required\">*<\/span><\/label> <input id=\"email\" name=\"email\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"100\" aria-describedby=\"email-notes\" autocomplete=\"email\" required=\"required\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-url\"><label for=\"url\">Website<\/label> <input id=\"url\" name=\"url\" type=\"text\" value=\"\" size=\"30\" maxlength=\"200\" autocomplete=\"url\" \/><\/p>\n<p class=\"comment-form-cookies-consent\"><input id=\"wp-comment-cookies-consent\" name=\"wp-comment-cookies-consent\" type=\"checkbox\" value=\"yes\" \/> <label for=\"wp-comment-cookies-consent\">Save my name, email, and website in this browser for the next time I comment.<\/label><\/p>\n<p class=\"form-submit\"><input name=\"submit\" type=\"submit\" id=\"submit\" class=\"submit\" value=\"Post Comment\" \/> <input type='hidden' name='comment_post_ID' value='263' id='comment_post_ID' \/>\n<input type='hidden' name='comment_parent' id='comment_parent' value='0' \/>\n<\/p><\/form>\t<\/div><!-- #respond -->\n\t<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O PEQUENO FAZENDEIRO Francisco Piccirillo Pequeno sitiante na Lagoa Nova, Jurandir, homem simples, com seus sessenta anos mais ou menos, cabelos grisalhos, barba feita, estatura normal, foi a S\u00e3o Paulo fazer algumas compras para sua propriedade rural. 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